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Grande sertão: veredas - parte II
Um pouco antes da batalha final, em um arraial chamado Paredão, Riobaldo faz uma declaração explícita a Diadorim: “Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...” Diadorim mostra-se surpreso e assustado, mas não chega a contestar a declaração do amigo. Ao amanhecer, Riobaldo vai banhar-se num riacho próximo, quando inesperadamente o bando de Hermógenes ataca o arraial. A luta é sangrenta. Grupos de jagunços aliados de Riobaldo chegam ao arraial. Do alto de um sobrado, impotente, Riobaldo assiste ao lance derradeiro da luta: os dois bandos inimigos entram em acordo e se desafiam para um duelo a arma branca. A frente de cada um dos lados, vão Hermógenes e Diadorim. A última visão de Riobaldo é o sangue que jorra do pescoço de Hermógenes, esfaqueado por Diadorim. Em seguida, desmaia. Horas depois, ainda tonto, Riobaldo ouve a voz da mulher de Hermógenes pedindo que trouxessem o corpo do moço de olhos verdes. Vem então a grande revelação: o corpo é o de Diadorim e é um corpo de mulher. Diadorim era, na verdade, Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins. Desesperado, Riobaldo atira-se sobre o corpo pelo qual nutrira, durante vários anos, profunda paixão: “Diadorim, Diadorim, oh, meus buritizais levados de verdes... Buriti do ouro da flor... Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca.” Após o enterro de Diadorim, Riobaldo decide abandonar a jagunçagem e resolve levar de volta à terra deles os catrumanos que haviam sobrevivido. Chegando às imediações das Veredas Mortas, é novamente atacado por febres e fica sabendo que o nome verdadeiro do local é Veredas Altas. Portanto, o lugar do Demônio não existe. Em seguida, Riobaldo perde o conhecimento. Volta a si numa fazenda próxima, de gente amiga. Lá é visitado por Otacília e a mãe desta que já querem marcar a data do casamento. Riobaldo pede algum tempo, alegando o sofrimento causado pela perda de um amor recente. Depois, ele recebe a informação de que Selorico Mendes morrera, deixando-lhe como herança duas fazendas. Riobaldo casa então com Otacília e passa a residir numa das fazendas que herdara, rodeado de vários antigos companheiros, que se tornaram seus agregados. É ali que o doutor vai encontrá-lo e passa a ouvir seu relato.
1. Estrutura narrativa- Grande sertão: veredas é construído como um extenso e ininterrupto relato, feito pelo ex-jagunço Riobaldo a um doutor – espécie de interlocutor oculto (J.H.Dacanal) – que o ouve, anotando coisas, reagindo apenas através de risadas e movimentos de cabeça. Este “quase-monólogo” dura três dias e começa assim: - Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem, não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço; gosto, desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão; determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas... Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois então se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. - Os eventos do passado – pelo menos até metade da obra – são rememorados sem ordem cronológica, em ziguezague, numa espécie de vaivém, entremeados de reticências, interrogações e idéias inconclusas. Assim, acontecimentos de fases diversas da vida do narrador são apresentados parcialmente e de forma aparentemente caótica. Somem-se a isto as contínuas especulações de Riobaldo – no tempo presente – a respeito do sentido oculto de todos os gestos humanos e ter-se-á uma idéia da complexidade da narrativa na sua primeira parte. - Contudo, o ex-jagunço tem pleno domínio da técnica de narrar a sua história, atribuindo o tumulto inicial de cenas, personagens e reflexões à própria diversidade e à riqueza da existência: (“Contar seguido, alinhado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância”). Inúmeras vezes, ele explica ao doutor que o seu “método” de narrar procede da força de certos fatos e emoções do passado: Contar é muito dificultoso. Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.(...) A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. (...) Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe; e se sabe, me entende. - Ainda do ponto de vista narrativo, todas as experiências do passado são argüidas no presente por Riobaldo através de um conjunto de angustiadas interrogações sobre o destino individual e sobre a condição humana, sobre Deus e o diabo, sobre o amor e o ódio, sobre a passagem do tempo e a morte, etc. Desta forma, passado e presente, em permanente contraposição, formam a totalidade da obra. - Em termos de referências históricas, o romance não é totalmente explícito, mas a soma de alusões indica que as ações narradas por Riobaldo ocorreram na época da República Velha (1889-1930). No entanto, o relato de Riobaldo ao doutor deve ser situada em algum momento posterior a meados da década de 1930, mais provavelmente já na década de 1940, pois o próprio narrador registra o declínio da jagunçagem no sertão mineiro, fato que se verifica após a Revolução de 30: Tempos foram, os costumes demudaram. Quase que, de legítimo leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada. Os bandos bons de valentões repartiram seu fim; muito que foi jagunço, por aí pena, pede esmola. Mesmo que os vaqueiros duvidam de vir no comércio vestidos de roupa inteira de couro, acham que traje de gibão é feio e capiau.
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