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Grande sertão: veredas - parte III

2. Ação, personagens e sentido da narrativa

- Ao evocar o turbilhão de acontecimentos de que participara, Riobaldo transita de sua infância até o momento em que deixa o mundo dos jagunços. Estas lembranças – muitas vezes misturadas – revelam um ser diferente em relação a seus pares: ele tivera acesso à escola, ainda que por pouco tempo, se tornara um sertanejo letrado e demonstra ter capacidade e liberdade intelectual incomuns: “O senhor saiba: eu toda a minha vida pensei por mim, forro, sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo...”

Esta autonomia leva-o, especialmente no presente, a questionar e refletir sobre o significado de seus atos pretéritos. Entre as inquietações vitais que atormentam a consciência de Riobaldo figuram:

a) a existência ou não do Demônio;
b) a natureza nebulosa das relações entre o Bem e o Mal;
c) o significado do sentimento que experimentou por Diadorim;
d) o sentido de sua vida como jagunço;
e) a busca de uma explicação para a condição humana.

- Apesar de Grande sertão: veredas apresentar uma primorosa reconstituição realista do sertão mineiro e da vida dos jagunços, com passagens verdadeiramente épicas, os tormentos individuais de Riobaldo, acima referidos, constituem o núcleo (psicológico, metafísico e sócio-histórico) principal da obra. Como muitas das interrogações do narrador não encontram respostas objetivas – a não ser no final do romance, e isso até certo ponto – o clima geral da obra é de fascinante ambigüidade. A idéia que preside à narração de Riobaldo é a fluidez de todas as coisas: “E estou contando não é uma vida de sertanejo, mas a matéria vertente.”

- Ao afirmar que o Diabo existe e não existe, ao dizer que gosta de Diadorim e que não gosta, ao celebrar e repudiar a jagunçagem, ao supor que “querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar...”, Riobaldo constrói um universo onde nada é fixo, onde tudo muda e se transforma e onde “as pessoas ainda não foram terminadas”. Incapaz de abranger a totalidade do real, o protagonista-narrador tenta, de maneira pungente, ordenar o informe, esclarecer o obscuro e colher, nas faces encobertas e resvaladiças da realidade sertaneja, a essência verdadeira do humano, se é que alguém pode encontrá-la: “A natureza da gente é muito segundas-e-sábado, tem dia e tem noite, versáveis...”

- A presença (ou a ausência) do Demônio constitui o núcleo existencial, filosófico e histórico-cultural do romance, cuja epígrafe já é reveladora: “O diabo na rua, no meio do redemoinho...” Riobaldo evoca dezena de vezes a figura do Arrenegado, para imediatamente negá-lo, embora, em sua fala, persista sempre uma dúvida: “Eu pessoalmente quase que já perdi nele a crença, mercês a Deus.” A aflição do ex-jagunço provém da possibilidade de ter feito com o pacto com Satanás, nas Veredas Mortas. Enfermo numa região estranha e primitiva (a terras dos catrumanos), percebendo que Hermógenes era indestrutível – pois “pactário” –, Riobaldo decide vender a alma em troca de força e fúria. O Diabo não aparece, mas o certo é que Riobaldo retorna das Veredas Mortas com uma energia terrível, que o endurece e o torna cruel, a ponto de desalojar Zé Bebelo do comando do grupo, atravessar incólume com o bando o Liso do Suassurão, seqüestrar a mulher de Hermógenes e, depois, atraí-lo para uma emboscada.

- Embora na obra o fluido e o ambíguo dominem e as sugestões poéticas que disso decorrem sejam infinitas (“Tudo é e não é...”), embora Riobaldo,/i> se mostre ambivalente e tenha dúvidas quanto à não-existência do Demônio, torna-se claro que ele não efetivou o pacto, pelo menos a partir de uma perspectiva do presente da narração. Desta maneira, se não houve o pacto, a responsabilidade pelos atos implacáveis e violentos cometidos durante sua vida de jagunço não pode ser atribuída à possessão demoníaca. As “forças turvas” nascem na própria alma do indivíduo:

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, é que não tem diabo nenhum...

Carregando em seu íntimo o bem e o mal, o ser humano escolhe – no intrincado cipoal da existência – seus caminhos. Estes sim, muitas vezes, é que são confusos e obscuros. Daí a frase lapidar de Riobaldo, tantas vezes por ele repetida: “Viver é muito perigoso.”

- Ao comprar a alma e não vendê-la – conforme a explicação do compadre QuelemémRiobaldo acaba olhando para o mundo com uma ótica positiva. Arrivista vitorioso, próspero fazendeiro, o ex-jagunço, através de seu relato, liberta-se do medo do Diabo, elimina a sensação de culpa (“Todo tormento. Comigo, as coisas não têm hoje ant’ontem amanhã: é sempre. Tormentos. Sei que tenho culpas em aberto...”), reconhece a aprendizagem do amor com Diadorim e afirma sua fé no “homem humano”, medida final de todas as coisas.

- A ambivalência que caracteriza os personagens do romance encontra sua expressão acabada na figura de Diadorim e na paixão interdita que Riobaldo sente por ele (ela). Arrastado por uma força instintiva desconcertante (ainda que no fundo correta), que o leva a desejar ardentemente o companheiro de bando, Riobaldo não pode admitir – dentro dos rígidos códigos morais sertanejos – o amor homossexual. Suas contradições interiores, nascidas do conflito entre a paixão e a repressão, são genialmente mostradas por Guimarães Rosa.

“Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria a boca; mas era um delem que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida.”
“Pois minha vida em amizade com Diadorim correu por muito tempo desse jeito. Foi melhorando, foi. Ele gostava, destinado, de mim. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga. Se amor? Era aquele latifúndio. Eu ia com ele até o rio Jordão... Diadorim tomou conta de mim.”
“Se ele estava com as mangas arregaçadas, eu olhava para os braços dele – tão bonitos, braços alvos, em bem feitos...”
“De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, e também, recesso dum modo, a raiva incerta, por ponto de não ser possível dele gostar como queria, no honrado e no final. Ouvido meu retorcia a voz dele. Que mesmo no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre.”

- Na véspera da batalha final entre os “riobaldos” e os “hermógenes”, o protagonista-narrador deixa escapar uma declaração explícita de amor por Diadorim: “Meu bem, estivesse dia claro, e eu pudesse espiar a cor de seus olhos...” Assustado, Diadorim responde: “O senhor não fala a sério!” E o assunto termina com Riobaldo se recompondo: “Não te ofendo, Mano. Sei que tu é corajoso...”

Fixa-se assim o destino trágico de Maria Deodorina que poderia revelar, pouco horas antes de morrer no duelo com Hermógenes, sua condição feminina e, em decorrência disso, buscar o amor de Riobaldo. Contudo, a necessidade de vingança, o ódio que nutre pelo “judas” e a imposição de que fora vítima – ser mulher “que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor...” – arrastam-na para a destruição.

Ao ver o corpo de Diadorim – ainda sem a revelação de sua nudez –, Riobaldo recusa aceitar a morte do ser amado. Se a realidade é apenas o que pode ser nomeado pelas palavras, ele emudecerá para sempre: “Não escrevo, não falo – para assim não ser: não foi, não é, não fica sendo! Diadorim.”

Mas, logo em seguida, Riobaldo percebe estarrecido que Diadorim “era o corpo de uma mulher, moça perfeita...” Então, numa das cenas de amor mais comoventes da ficção ocidental, ele toca castamente as carnes ensangüentadas da mulher-guerreira:

Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata.... Cabelos que só, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
-- “Meu amor!...”



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