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  Livro do Mês


Senhora - parte I

ARGUMENTO

A sociedade do Rio de Janeiro é surpreendida pelo surgimento de uma linda jovem de dezoito anos, Aurélia Camargo, que causa grande impressão pela beleza, pela riqueza e pelo desprezo com que trata a todos os seus pretendentes. Valendo-se de seu tio e tutor, Lemos, ela manda oferecer ao pai de uma jovem, Adelaide Amaral, a vultosa soma de cinqüenta contos de réis para que a sua filha se casasse com um rapaz pobre, Torquato Ribeiro, a quem Adelaide amava de fato. Para isso, Adelaide deveria romper o seu atual noivado com o jovem Fernando Seixas, pelo qual ela não nutria nenhum afeto. Este rapaz, Seixas, por seu turno, noivara com a moça apenas por causa de seu dote, no valor de trinta contos de réis.

Simultaneamente, Aurélia manda o tutor oferecer cem contos de réis a Fernando Seixas para o que mesmo aceitasse um contrato de casamento, sem saber qual seria a sua futura esposa. Aurélia – que já fora noiva do rapaz – sabia de sua volubilidade e seu caráter interesseiro e que dificilmente ele resistiria a tal oferta. Num primeiro momento, Seixas recusa a oferta. Porém, há tempos, para manter sua vida luxuosa, ele vinha sacando dinheiro da poupança de sua mãe e de suas irmãs, tendo já uma dívida de vinte contos de réis. Coincidentemente a mãe pedira-lhe que retirasse esta quantia do pecúlio da Caixa Econômica para fazer o enxoval de uma das irmãs. Desesperado, Seixas é levado a aceitar a proposta de Lemos, ainda sem conhecer a mulher que o está comprando.

Ao ser apresentado à sua futura esposa, o rapaz não reconhece a antiga namorada que permanece fria e distante. O casamento é realizado na casa de Aurélia. Quando todos os convidados se retiram, a jovem não permite que Seixas a toque, dizendo que tudo não passava de um negócio: ela tinha a necessidade social de ter um marido; ele, a necessidade do dinheiro. Contudo, Aurélia exige que ambos mantivessem, aos olhos da sociedade, a farsa de um casamento feliz e perfeito. Depois, ela conta ao esposo comprado a sua história de moça pobre, abandonada por dinheiro pelo noivo ambicioso. Só então Seixas reconhece a namorada de outros tempos.

Aurélia continua narrando o seu passado: quando a mãe morrera, tinha ido viver na casa de uma parente distante até receber a notícia de que fora nomeada herdeira universal de fazendas e outros bens por parte de um avô desconhecido. Quis vingar-se então da sociedade que a desprezara, tornando-se a “rainha dos salões”e humilhando os jovens caçadores de dotes. Por fim, planejara meticulosamente a sua maior vingança: comprar Fernando Seixas e torná-lo seu marido.

A partir destas revelações, o relacionamento entre Aurélia e Seixas é marcado por fortes contradições e grande violência verbal. A moça ultrajada ainda ama o rapaz, mas simultaneamente o despreza por sua natureza ambiciosa. Por outro lado, Seixas apaixona-se por sua “senhora”, mas sente-se envergonhado por sua conduta anterior. O tratamento gélido e as ironias mordazes da esposa o golpeiam com violência. De forma sutil, José de Alencar desloca o foco do romance que passa da crítica social à análise dos problemas afetivos: orgulho, altivez, ciúmes. Seixas não suporta Eduardo Abreu, jovem rico e que sempre fora apaixonado por Aurélia. Melancólico. Eduardo dissipara sua fortuna em Paris e agora voltara a viver no Rio de Janeiro, visitando Aurélia com freqüência. Já esta experimenta ciúmes em relação a Adelaide Amaral. O escritor começa a preparar um inverossímil final feliz.

Estas crises conjugais feitas de diálogos ásperos, sarcasmos contundentes e ausência de contato físico duram onze meses. Seixas então (surpreendentemente) recebe os dividendos de um investimento do qual sequer se recordava e decide pagar pelo seu resgate, devolvendo o dinheiro recebido e assim se libertando da relação opressiva. Diante de uma Aurélia comovida, culpa a sociedade por tê-lo tornado um irresponsável, capaz de gestos pouco íntegros para ascender economicamente. Os dois combinam o divórcio e se despedem. Porém, quando saía do quarto, Seixas é detido por Aurélia:

---- O passado está extinto. Esses onze meses, não fomos nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já não é meu marido. Somos dois estranhos. Não é verdade?

Seixas confirmou com a cabeça.
---- Pois bem, agora ajoelho-me a teus pés, Fernando, e suplico-te que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda quando mais cruelmente ofendia-te.

Seixas ainda argumenta que a riqueza de Aurélia os afastaria para sempre. A jovem responde-lhe: “Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu Fernando. É o meio de a repelires. Se não for bastante, eu a dissiparei.” Seixas compreende então o valor da renúncia de Aurélia e os dois poderão viver felizes para sempre dentro do “santo amor conjugal”.



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