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Senhora- parte III
5) Fernando Seixas é um jovem autor de folhetins, de origem muito pobre e de bom coração, mas degradado pela ação de uma ordem social em que o dinheiro e a futilidade ocupam papéis dominantes. Vê no casamento a forma de alcançar o que deseja. Sua ambição, no entanto, não lhe destrói um substrato de integridade que o levará, no final do relato, à regeneração. Embora não se isente de culpa, Seixas aponta a principal responsável por sua queda moral: “A sociedade no meio da qual me eduquei fez de mim um homem à sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastavam.” 6) O propósito realista de José de Alencar não se efetiva, contudo. Há incoerências em Senhora que impedem o triunfo do modo realista de composição, entre as quais figuram: A) Com seus 18/19 anos, Aurélia tem uma consciência improvável dos mecanismos que regem as relações sociais. Parece uma doutora em economia. Além disso, o “frio desprezo” e o escárnio marmóreo”com que trata a sociedade é inverossímil – como bem observou José H. Dacanal – num contexto em que estas atitudes desafiariam radicalmente as normas do comportamento feminino. A credibilidade da personagem também se esvai quando ela nos é mostrada em sua interioridade: trata-se de uma menina cândida e inocente. A cisão entre a vingadora implacável e a donzelinha quase boba não é explorada nem aprofundada por Alencar. O crítico Roberto Schwarz atribui a inconsistência de Aurélia ao fato de sua visão crítica e de sua altivez dominadora, já comuns na sociedade burguesa européia, serem inviáveis na mesquinha, patriarcal e provinciana sociedade brasileira do II Império. Assim, o tom de falsidade da personagem resulta da fratura entre o seu moderno discurso anti-capitalista e o país onde ela vive, tão historicamente atrasado que sequer atingira o estágio do capitalismo. B) Outro grave problema da obra reside no fato de que os conflitos resultantes da vida social pouco a pouco se convertem em conflito de ordem sentimental. Como diz um crítico: “O que era uma guerra social se transforma em rusga familiar...”. O dinheiro não é mais o móvel do mundo, é o amor romântico. A conversão final de Seixas (que paradoxalmente se redime por uma quantia ganha em especulação financeira) e o abrandamento da consciência crítica de Aurélia produzem um efeito desastroso na obra. Entramos no domínio do folhetim barato. Há que compreender, no entanto, a ótica conservadora de José de Alencar. Tanto a sua repulsa ao dinheiro, que tudo avilta, como a necessidade de celebrar a felicidade suprema de “formar uma família em que se revivam e multipliquem as almas que o amor uniu”, traduzem uma concepção patriarcalista da existência, centrada nas “delícias” de um regime doméstico que, “se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família”. Mais do que o ideário romântico, o que aproxima Aurélia e Seixas é a defesa de um modo de vida ameaçado pelo mundo moderno que Alencar e as elites rurais procuravam evitar.
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