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A hora da estrela - parte II
b) A camada de Macabéa: é o registro da medíocre trajetória no Rio de Janeiro de uma alagoana de 19 anos, moradora de um quarto de pensão que divide com quatro balconistas das Lojas Americanas. Macabéa é moça raquítica, feia, solitária e morrinhenta, além de ser uma datilógrafa de segunda categoria. Alienada, sonsa, adora ouvir a Rádio Relógio, coleciona pequenos anúncios num álbum e gostaria de ser artista de cinema. Trata-se de uma jovem sem qualquer tipo de vida interior, sem futuro e com um passado inexpressivo, quase cretina. No transcurso da história, Macabéa arruma um namorado, também nordestino, o metalúrgico Olímpico de Jesus, só que este, apesar de inculto e grosseiro, sonha em integrar-se ao Sul, ascender socialmente e até tornar-se deputado. Percebendo os limites gerais de Macabéa, (“Ela era incompetente para a vida”, diz o narrador), Olímpico troca-a por Glória, estenógrafa, loira oxigenada e amiga de sua ex-namorada. Aconselhado pela própria Glória, Macabéa procura uma cartomante, Madame Carlota, antiga prostituta e cafetina. Esta, sinceramente horrorizada com a vida que a moça levava, resolve animá-la com a perspectiva de um futuro sorridente, profetizando que a nordestina encontraria um estrangeiro alourado de “olhos azuis ou verdes ou castanhos ou pretos”, muito rico e com quem se casaria. Macabéa que “nunca tinha tido coragem de ter esperança”, sai feliz da consulta, pois “a cartomante lhe decretara sentença de vida”. Porém, ao atravessar a rua distraidamente é atropelada por uma Mercedes amarela. Cai no chão, agoniza e diz sua última frase, em aparência enigmática: “Quanto ao futuro”. Várias pessoas observam a moribunda. Alguém pousa junto ao corpo uma vela acesa. Desta maneira, Macabéa alcança, com a própria morte, a sua hora de estrela.
1) Em relação à obra de Clarice Lispector: a)Escrito quando um câncer a corroia, A hora da estrela é a tentativa da autora de fugir da sufocante introspecção das obras anteriores (“...não agüento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter em pé...”), criando um texto que tivesse alguma abertura para o mundo exterior. b) Não se pode desconsiderar as circunstâncias históricas em que o livro foi produzido: o governo Geisel com sua “distensão lenta e gradual”, o recuo dos aparelhos repressivos, as inquietações da sociedade civil, as contestações políticas menos tímidas e a perspectiva do fim da ditadura militar, possam ter influenciado a escritora a produzir algo mais “social”. Um texto solidário em relação aos milhares de nordestinos que migravam para o Sudeste em busca de melhores condições de vida corresponderia, com certeza, ao clima da época. c) A novidade da criação que é a criação de um narrador masculino (único na obra de Clarice) para relatar o drama de Macabéa. Por ser homem, Rodrigo S.M, poderia ter uma visão menos intimista e sentimental e, portanto, mais capaz de entender a extensão da realidade concreta (“...porque escritora mulher pode lacrimejar piegas...”).
2) Em relação ao narrador a) A questão do narrador é essencial no texto. Na Dedicatória do autor, que abre o livro há uma advertência: “Na verdade Clarice Lispector”. Estabelece-se, assim, uma estrita vinculação entre Clarice e o narrador da obra. Ambos se confundem.São um só e, ao mesmo tempo, são diferentes. Rodrigo S.M. representa uma outra forma de ser e de escrever de Clarice, um desdobramento do próprio eu da escritora, uma espécie de heterônimo. Este narrador expressaria de maneira mais confiável a realidade objetiva, (o drama de Macabéa) como também poderia apresentar algumas respostas aos impasses existenciais e literários que atormentavam a autora de Laços de família .Desta forma, A hora da estrela deixa de ser uma novela especificamente social e torna-se também um “drama de linguagem”, (expressão de Benedito Nunes) e um questionamento metafísico sobre o significado último da existência. b) As primeiras vinte páginas do texto são de discussão dos problemas que Rodrigo S.M. enfrenta para escrever. Um deles diz respeito à questão do estilo a ser empregado. O narrador opta pela simplicidade: É claro que, como todo o escritor, tenho a tentação de usar termos suculentos: conheço adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar(...) Mas não vou enfeitar a palavra (...) Tenho que falar simples.(...) Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. Outra preocupação de Rodrigo S.M. é o da estrutura narrativa. Confundido-se com Clarice, ele renuncia ao modo psicológico/subjetivo da escrita anterior e anuncia sua adesão a uma forma tradicional de narrar: Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” Mas, pode o narrador basear-se no modelo convencional de narrativa, se sua protagonista é uma coitada, sem qualquer possibilidade de ação sobre o mundo? Inúmeras vezes Rodrigo S.M. problematiza a mediocridade da história que vai contar:
Que não se esperem, então, estrelas no que se segue: nada cintilará, trata-se de matéria opaca e por sua própria natureza desprezível por todos. (...) Limito-me a contar as fracas aventuras de uma moça numa cidade toda feita contra ela. (...) O seu viver é ralo.(...)c) Aspecto significativo da obra é a culpa do narrador em relação à Macabéa. A consciência que, de alguma maneira, ele é co-responsável pela pobreza econômica e existencial da jovem nordestina o atormenta: Ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela.(...) Sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que faz de mim de algum modo um desonesto. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim. (...) Sou obrigado a procurar uma verdade que me ultrapassa. (...) A moça é uma verdade da qual eu não queria saber.(...) Não sei a quem acusar, mas deve haver um réu.(...)d) Escrever, para Rodrigo S.M., é algo mais do que contar uma história ou fixar um drama social. Escrever é questionar-se o tempo todo: “Este livro é uma pergunta.”. É, ao mesmo tempo, uma busca de autoconhecimento (“Desculpai-me, mas vou continuar a falar de mim que sou meu desconhecido.”); é uma tentativa de encontrar significado para a existência fora da própria interioridade (“Bem sei que é assustador sair de si mesmo.”); e é, também, uma suspensão parcial da morte: (“Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.”). Mesmo assim, o narrador experimenta um forte sentimento de fracasso da linguagem e a certeza de que a literatura não resolve os problemas humanos. e) Um dos aspectos mais complexos da obra é a relação de Rodrigo S. M. com Macabéa. Se por um lado, ele vê a jovem como alguém que merece amor, piedade e até um pouco de raiva, por sua patética alienação, por outro lado, ele estabelece com ela um vínculo mais profundo, que é o da comum condição humana. Esta identidade, que ultrapassa as questões de classe, de gênero e de consciência de mundo, é um elemento de grande significação no romance, Rodrigo e Macabéa se confundem: Mas eu, que não chego a ser ela, sinto que vivo para ela. (...) Essa história será um dia o meu coágulo... (...) Vejo a nordestina se olhando ao espelho e – um rufar de tambor – no espelho aparece o meu rosto cansado e barbudo. Tanto nós nos intertrocamos. (...)
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