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Memórias de um sargento de milícias- parte II
A ousadia do escritor em quebrar as concepções literárias de sua época cristaliza-se na seqüência de situações cômicas vividas pelos personagens. A começar pelo anti-herói da narrativa, Leonardo, cuja origem vulgar, “filho de uma pisadela e de um beliscão”, antecipa-lhe a natureza pouco elevada. Com efeito, desde a infância, Leonardo se mete em confusões, é abusado, vadio e meio tolo, frustrando as expectativas de seus protetores: Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem Dona Maria queria fazer rábula arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas que escolher, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para o cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer, constituiu-se um completo vadio, vadio-mestre, vadio-tipo. Há cenas hilariantes de destruição dos lugares-comuns românticos, entre as quais a da primeira declaração de amor.No Romantismo este momento é solene, tendendo ao sublime. Porém, quando Leonardo declara-se a Luisinha o tom do relato torna-se humorístico: A bulha dos passos cessou sem que ninguém chegasse à sala; os dois levaram algum tempo naquela mesma posição, até que o Leonardo, por um supremo esforço, rompeu o silêncio, e com voz trêmula e em tom o mais sem graça que se possa imaginar perguntou desenxabidamente: – A senhora... sabe... uma coisa? E riu-se com uma risada forçada, pálida e tola. Luisinha não respondeu. Ele repetiu no mesmo tom: – Então... a senhora... sabe ou... não sabe? E tornou a rir-se do mesmo modo. Luisinha conservou-se muda. – A senhora bem sabe... é porque não quer dizer... Nada de resposta. – Se a senhora não ficasse zangada... eu dizia... Silêncio. – Está bom... eu digo sempre... mas a senhora fica ou não fica zangada? Luisinha fez um gesto de quem estava impacientada. – Pois então eu digo... a senhora não sabe... eu... eu lhe quero... muito bem. Luisinha fez-se cor de uma cereja; e fazendo meia volta à direita, foi dando as costas ao Leonardo e caminhando pelo corredor. Era tempo, pois alguém se aproximava. O narrador não poupa ninguém. Sobre o amor de Leonardo Pataca por uma cigana declara que “o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha”. Sobre a volubilidade do Leonardo filho, registra que “herdara de seu pai aquela grande cópia de fluído amoroso que era a sua principal característica”. Duvida da eternidade do primeiro amor, “embora vá de encontro dos ultra-românticos, que põem todos os bofes pela boca pelo tal primeiro amor”.
Nenhuma idealização permeia o texto. Veja-se a descrição de Vidinha, moça de comportamento bastante livre e que se torna namorada do anti-herói: Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem. Tudo vira comédia: as vadiagens do Leonardo, a ingenuidade do compadre em relação ao afilhado, as maquinações da comadre, os casos amorosos, as perseguições do major Vidigal. Tudo é observado pelo avesso. O mundo refletido é tão corriqueiro e tão banal que nele não há espaço para tragédia humana, só para o riso. Mesmo a conclusão do romance é enganosa: depois que Leonardo esgota todas as possibilidades de aventura e diversão, lhe resta apenas o casamento, como bem assinala Antonio Candido. As núpcias entre Leonardo e Luisinha, unindo afeto e várias heranças, pode dar a idéia de uma capitulação ao ideário romântico da felicidade conjugal. No entanto, o último parágrafo sugere uma dimensão crepuscular e amarga: Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto final. Mário de Andrade percebeu que a narrativa acaba quando “o inútil da felicidade principia”. Por isso, a impressão triste deixada pelo último parágrafo, o “reverso da medalha”, parece advir menos da morte de vários personagens do que da impossibilidade de Leonardo continuar com sua vida alegre e irresponsável.
O teor humorístico, o deboche explícito aos lugares-comuns românticos e a fixação de costumes levaram alguns críticos a classificar Memórias de um sargento de milícias como um romance precursor do Realismo. O texto de Almeida se filia, sem dúvida, à “estética realista”, em um conceito bastante amplo da expressão Porque esta estética é a que, de forma verossímil, apresenta e desvela um mundo concreto. E isso vale para Cervantes, Gregório de Matos ou Goethe. Contudo, a classificação é equivocada, se tomarmos Realismo no sentido de um período literário específico, desenvolvido na Europa, com as obras inaugurais de Balzac e Stendhal e consolidado (na teoria e na prática) por Flaubert. Certos postulados realistas como a objetividade do narrador, a análise psicológica, a busca pela perfeição formal, por exemplo, não se encontram nas Memórias. Desta maneira, o despretensioso romance de Manuel Antônio de Almeida se situa à margem das escolas européias, constituindo um caso singular de romance autenticamente brasileiro não apenas no conteúdo, mas também em sua execução formal.
Na década de 1950, o crítico Darcy Damasceno intuiu que Memórias de um sargento de milícias não se enquadrava nos preceitos convencionais e designou o romance como picaresco, na tradição das novelas picarescas espanholas dos séculos XVI e XVII. O pícaro, com efeito, procede das classes populares, a exemplo de Leonardo, e desde cedo é largado no mundo, obrigando-se a desenvolver diversas estratégias de sobrevivência, entre as quais a dissimulação e o roubo. No entanto, ao contrário das Memórias, a novela picaresca é narrada pelo próprio personagem,. Além disso, em suas andanças pela Espanha, o pícaro vai anexando experiências e desenvolvendo um agudo senso crítico a respeito da condição humana. Já Leonardo em sua trajetória pela capital do reino nada acrescenta a sua personalidade, a não ser a percepção de que havia mulheres menos insossas que Luisinha. Ao inverso do pícaro que é um ser solitário, Leonardo tem a proteção de inúmeras mulheres. Assim, as diferenças entre o pícaro e o futuro sargento das milícias são maiores que as semelhanças. Em análise brilhante, Antonio Candido vai além da noção do picaresco e surpreende na essência do romance a manifestação da malandragem brasileira, criando uma delimitação que hoje impera entre os estudiosos da obra.
O malandro é um aventureiro astucioso, que busca tirar vantagem em tudo, vivendo numa zona intermediária entre a sociedade organizada e a semi-marginalidade. Sua sobrevivência passa por uma relativa ausência de ética, traduzida em expedientes como pequenos golpes, pequenos roubos, uma esperteza contínua que o livra tanto do trabalho quanto da prisão. A emergência da malandragem como opção de vida dos pobres livres no século XIX resulta de um processo histórico que Almeida captou intuitivamente em seu romance. Segundo Antonio Candido, a narrativa apresenta uma análise crítica e irônica dos costumes morais, por estruturar-se sobre o antagonismo ORDEM x DESORDEM. A ORDEM representa a sociedade constituída, com regras e normas, aparato legal, instituições, é o universo da classe dirigente. A DESORDEM expressa a sociedade dos estratos médios e populares, para quem as leis e os valores estabelecidos são mais fluidos, menos rigorosos. A malandragem ocupa um lugar intermediário entre os dois hemisférios e acaba dominando o romance porque quase todos os personagens (e não apenas Leonardo) vivem nesta esfera ambígua entre a norma moral e a safadeza. Observe-se um exemplo: Major Vidigal - agente principal da ORDEM. Leonardo - agente principal da DESORDEM. Ora, o relato centra-se, até as últimas páginas, no confronto entre o Chefe da Polícia e o grande malandro. Mas eis que, no final da história, em troca dos favores sexuais de Maria Regalada, o “incorruptível” major aceita libertar o vadio Leonardo e ainda lhe concede o posto de sargento. Que país é este, em que tudo se resolve na base do “jeitinho”, do “toma lá, dá cá”, em que o malandro número um do Rio de Janeiro transforma-se, num passo de mágica, em agente qualificado da repressão militar? Tênues são as fronteiras entre o lícito e o ilícito, o certo e o errado. Passa-se de um lado para outro com a maior facilidade. Tome-se a história do compadre, o generoso compadre que dá guarida e afeto a Leonardo. O seu “arranjei-me” (ver capítulo IX) nasce do furto da fortuna de um capitão de navio que, moribundo, pedira-lhe que entregasse o dinheiro para uma filha em terra. O compadre adona-se da quantia, sem que qualquer culpa ou remorso o inquiete posteriormente. Diante deste mundo onde as normas são burladas continuamente, Manuel Antonio de Almeida abstém-se de maiores julgamentos. Conhece o relativismo de toda a moral. Para ele, ORDEM e DESORDEM são mais ou menos equivalentes. Neste desmascaramento moral reside um dos aspectos principais de sua obra. Só que o desmascaramento não ocorre através de complexas análises psicológicas - à maneira de Machado de Assis – e sim através de humor rápido, imprevisto, que evidencia a natureza malandra dos protagonistas. O avesso das coisas é sempre anedótico. E o riso triunfa, fácil e debochado, fornecendo ao romance uma dimensão visceralmente brasileira.
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