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Casa-Grande e Senzala- parte II
Gilberto Freyre rompe com a ideologias racistas vigentes e canta a miscigenação como elemento chave da conquista do trópico. É o ideólogo da mestiçagem: ao se entregarem à luxúria com índias e negras, os portugueses teriam estabelecido um aspecto democratizador nas relações étnicas do Brasil. O inverso, por exemplo, dos ingleses na colonização da América do Norte. A própria durabilidade da expansão portuguesa no Brasil é atribuída tanto ao “furor genésico” do colonizador luso, um garanhão desbragado, um tipo superexcitado sexualmente e que tinha a sua disposição os corpos das escravas, quanto a um hipotético projeto geopolítico do Estado português, preocupado com a falta de braços para a atividade colonial. O sexo sem limites e a conseqüente mestiçagem teriam possibilitado a adaptação e o triunfo da civilização européia em meio às dificuldades oferecidas pelo contexto tropical. E ainda por cima teriam gerado um clima de abrandamento dos rigores morais católicos, fazendo emergir um ambiente sensual e sem preconceitos, ao ponto de doenças venéreas passaram a ser, na cultura brasileira, fatos socialmente aceitos: “A sífilis sempre fez o que quis no Brasil patriarcal. Matou, cegou, deformou à vontade. Fez abortar mulheres. Levou anjinhos para o céu. Uma serpente criada dentro de casa sem ninguém fazer caso de seu veneno. O sangue envenenado rebentava em feridas. Cocavam-se então as perebas, tomavam-se garrafadas, chupava-se caju. (...) No ambiente voluptuoso das casas-grandes, cheias de crias, mulecas, mucamas é que as doenças venéreas se propagaram mais à vontade através da prostituição doméstica – sempre menos higiênica que a dos bordéis. Em 1845, Lassance cunha escrevia que o brasileiro não ligava importância à sífilis, ‘doença como que hereditária e tão comum que o povo a não reputa um flagelo, nem tampouco a receia.”
Um dos aspectos mais progressistas do pensamento de Gilberto Freyre é sua reação contra as teorias climáticas, muito em voga na época. Segundo elas, haveria uma impropriedade natural do trópico para a efetivação de um verdadeiro processo civilizatório. Ou seja, o clima nos condenaria eternamente à penúria. O Autor refuta essas concepções, conferindo uma dimensão apenas secundária à questão do meio natural e privilegiando, em suas análises, as motivações sociais, econômicas e, sobremodo as culturais para explicar a origem dos principais impasses brasileiros.
Claro que Casa-grande e senzala não está isenta de contradições. O pensador revolucionário e o filho do senhor de engenho coexistem em sua escrita. Em um belo ensaio, Darcy Ribeiro acentua a barafunda ideológica que anima a obra. Não existe no texto um modelo sistemático e coerente de investigação da realidade. Freyre nunca foi um pensador strictu sensu. Estudou na América com o célebre antropólogo Franz Boas e herdou dele o gosto pela “descrição criteriosa, exaustiva, cuidadosíssima, mas desinteressada de qualquer generalização teórica.” Estas imprecisões conceituais, a nostalgia da velha ordem patriarcal, a recusa ao moderno, o elogio da pretensa democracia racial dos portugueses, tudo isso que no livro envelheceu é superado, entretanto, pelo extraordinário levantamento da sociedade brasileira na sua configuração colonial.
Casa-grande e senzala é um painel gigantesco da nossa formação. Não se trata apenas de um registro das matrizes étnicas e sociais que fundamentaram a atividade exploratória no país, e sim de uma espécie de romance do Brasil pré-capitalista. Com legítima vocação de romancista, o sociólogo Gilberto Freyre pesquisou infinitas fontes primárias, leu tudo: relatos de viagens, diários de senhores de engenho, sermões, cartas comerciais e privadas, estatísticas médicas, milhares e milhares de documentos aparentemente inúteis. Com a maior sem cerimônia, penetra na vida cotidiana dos séculos passados, surpreendendo num bilhete de alcova ou num registro testamentário a mentalidade da época. Descreve os ambientes, os modos de existência familiar, a rotina de um sistema que, além de sua órbita econômica, sedimentou os valores mais profundos da civilização brasileira, pelo menos durante três séculos. Darcy Ribeiro crê que em nenhuma outra língua exista trabalho tão minucioso, tão copioso em informações. E tão fascinante. Porque lemos Casa-grande e senzala como quem lesse uma grande obra narrativa. Para isso contribui a habilidade verbal de Freyre que estabelece o que, em literatura, se chama estilo. Ele tem um estilo sugestivo e brilhante, uma volúpia no trato com a palavra. Os efeitos de linguagem tornam-se visíveis a todo o instante: “A força concentrou-se nas mãos dos senhores rurais. Donos das terras. Donos dos homens. Donos das mulheres. Suas casas representavam bem esse imenso poderio feudal. Feias e fortes. Paredes grossas. Alicerces profundos. Óleo de baleia. Há uma tradição nortista que um senhor de engenho mais ansioso por perpetuidade não se conteve e mandou matar dois escravos e enterrá-los nos alicerces da casa. O suor e às vezes o sangue dos negros foi o óleo que mais do que a baleia ajudou a dar alicerce às casas-grandes. O sucesso editorial de Casa-grande e senzala, mais de vinte edições e várias traduções, número inédito para qualquer ensaio, prova que o texto transcende ao meramente sociológico, convertendo-se em monumento cultural e literário do país. Lê-lo, mesmo para um leitor jovem, constitui inesquecível aventura.
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