Canto ao homem do povo, Charlie Chaplin
O poeta tenta aproximar-se da atmosfera dos filmes de Chaplin para celebrar aquilo que no artista é a sabedoria dos vagabundos “que o mundo repeliu, mas zombam e vivem / [...] e vencem a fome, iludem a brutalidade, prolongam o amor”. Desconfia que o discurso, “acalanto burguês”, não agrada este homem do povo. Por isso, o poeta deve falar como um ser comum. Deve falar pelos que não têm voz, “os abandonados da justiça, os simples de coração, / os párias, os falidos, os mutilados, os deficientes, os recalcados / os oprimidos, os solitários, os indecisos, os líricos, os cismarentos,” fundindo o seu canto com as palavras silenciosas dos que amam Carlitos.Mais do que uma simples ode, o texto torna-se reflexão sobre o fazer artístico. A arte de Chaplin cumpre uma função purificadora: “Falam por mim os que estavam sujos de tristeza e feroz desgosto de tudo / que entraram no cinema com a aflição de ratos fugindo da vida, / [...] e te descobriram e salvaram-se.” A arte responde à opressão da realidade, libertando os indivíduos: “E já não sentimos a noite, / e a morte nos evita, e diminuímos / como se ao contato de tua bengala mágica voltássemos / ao país secreto onde dormem meninos.”
Depois de inúmeras referências a episódios dos filmes de Chaplin – que precisariam ser contextualizadas para quem não os assistiu – o poeta invoca (em tom exaltado e sublime, ou seja, ao contrário do estilo do cineasta) o poder de indignação e a onipresente esperança de sua arte:
Poder da voz humana inventando novos vocábulos e dando sopro aos exaustos.
Dignidade da boca, aberta em ira justa e amor profundo,
Crispação do ser humano, árvore irritada, contra a miséria e a fúria dos ditadores,
Ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó
[e esperança.
Façamos uma análise rápida deste que é o mais célebre poema de A rosa do povo:
1 Preso à minha classe e a algumas roupas,
2 vou de branco pela rua cinzenta.
3 Melancolias, mercadorias espreitam-me.
4 Devo seguir até o enjôo?
5 Posso, sem armas, revoltar-me?
6 Olhos sujos no relógio da torre:
7 Não, o tempo não chegou de completa justiça.
8 O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
9 O tempo pobre, o poeta pobre
10 fundem-se no mesmo impasse.
11 Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
12 Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
13 O sol consola os doentes e não os renova.
14 As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase.
15 Vomitar esse tédio sobre a cidade.
16 Quarenta anos e nenhum problema
17 resolvido, sequer colocado.
18 Nenhuma carta escrita nem recebida.
19 Todos os homens voltam para casa.
20 Estão menos livres mas levam jornais
21 e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
22 Crimes da terra, como perdoá-los?
23 Tomei parte em muitos, outros escondi.
24 Alguns achei belos, foram publicados.
25 Crimes suaves, que ajudam a viver.
26 Ração diária de erro, distribuída em casa.
27 Os ferozes padeiros do mal.
28 Os ferozes leiteiros do mal
29 Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
30 Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
31 Porém meu ódio é o melhor de mim.
32 Com ele me salvo
33 e dou a poucos uma esperança mínima.
34 Uma flor nasceu na rua!
35 Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
36 Uma flor ainda desbotada
37 ilude a polícia, rompe o asfalto.
38 Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
39 garanto que uma flor nasceu.
40 Sua cor não se percebe.
41 Suas pétalas não se abrem.
42 Seu nome não está nos livros.
43 É feia. Mas é realmente uma flor.
44 Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
45 e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
45 Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
46 Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
47 É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Observe na primeira estrofe alguns dos recursos poéticos de CDA. No verso 1, uma insólita associação entre o concreto e o abstrato (“preso à minha classe e a algumas roupas”). No verso 2, a antítese (“branco x cinzenta”). No verso 3, a paronomásia* (“melancolias, mercadorias”), abruptamente personificada (“espreitam-me”), revelando tanto o caráter depressivo quanto a coisificação que imperam nesta cidade asfixiante por onde o poeta vaga, cheio de angústia. Limitado pelo seu individualismo, o eu-lírico não consegue imaginar outra revolta fora a das armas, que não possui.
A segunda estrofe abre sob o signo do relógio da torre: o relógio da cidade que marca não as horas, mas a marcha da história. Só que o tempo da justiça não chegou ainda. O tempo e o poeta são igualmente repulsivos e inconclusos, fundindo-se “no mesmo impasse”. O crítico Otto Maria Carpeaux mostrou que esta fusão entre o eu-lírico e o mundo objetivo dá grande consistência à poesia de CDA, na medida em que ele não vê os problemas “de fora”, como outros poetas sociais. Ao inverso, ele mescla o particular ao geral, “vivendo” os problemas coletivos, seu drama é comum ao drama da sociedade. Assim, a redenção do mundo será também a sua redenção pessoal.
O perambular do poeta pela cidade inóspita e alienada prossegue nas estrofes seguintes. No verso 11, descobrimos a inutilidade de suas explicações, pois os muros (metáfora de homens) são surdos. As palavras – também elas corrompidas pelo egoísmo das “cifras e dos códigos”- não servem para indicar qualquer caminho. Tampouco o sol pode curar os seres doentes, no máximo oferece um consolo pobre.
Na cidade reificada*, os homens caminham, feito autômatos, de volta para casa. A realidade para eles é apenas a que alcançam soletrar nos jornais, enquanto o poeta, vagando sem rumo, pensa em vomitar sua náusea, sua liberdade inútil, sua incapacidade de relacionar-se. A literatura, percebe agora, de nada serve, é um pequeno crime, crime da subjetividade, crime de um eu que não consegue encontrar os semelhantes, “ração diária de erro”.
Os aparentemente enigmáticos versos 27 e 28: “Os ferozes padeiros do mal. / Os ferozes leiteiros do mal.” indicam tanto a banalização do mal quanto a sua irradiação pelo cotidiano, pois leiteiros e padeiros entregavam seus produtos diretamente nas casas e eram, portanto, personagens comuns da vida diária das cidades brasileiras.
O desespero segue no impulso suicida do verso 29: “Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.” Contudo, a partir do verso 30, a lembrança aparentemente irracional da revolta do menino, a quem chamavam de anarquista, traz à tona o ódio. Esse se insinua como possibilidade de salvação do poeta e de esperança para outros homens.
*Paranomásia: figura retórica que consiste na associação de palavras com semelhança fonética e significado distinto.
*Reificada: coisificada
Na penúltima estrofe, entretanto, o nascimento de uma flor feia, raquítica, desbotada e tão vulgar que sequer está classificada nos livros, representa a emergência de algo novo, algo que surge para romper com a coisificação e a náusea, algo que ultrapassa o ódio, enchendo de significado a liberdade vazia do poeta.
A última estrofe é extraordinária. No verso 44, o poeta suspende a realidade alienada e a vida como ela é, na ordem capitalista, sentando-se assombrosamente no chão da capital do país às cinco horas da tarde. No verso 45, acaricia a representação da vida como um dia ela será ou poderá ser. E enquanto uma tempestade se aproxima (versos 46 e 47), provavelmente para varrer com a fúria dos elementos o velho mundo, a flor – no último verso de uma sucessão metricamente irregular e de poderosas imagens – fura a náusea e anuncia o amanhã.
ACHCAR, Francisco. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo, Publifolha, 2000.
(Excelente e acessível introdução à obra poética de CDA.)
CANDIDO, Antonio. Inquietudes na poesia de Drummond in Vários escritos. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1970.
(Ensaio rápido, mas de notável abrangência sobre os elementos essenciais da obra.)
CAMPOS, Maria do Carmo. A rosa do povo, memória e mutilação in A matéria prismada. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1999.
(Em curto ensaio, uma instigante leitura de uma das obras-primas da poesia brasileira.)
FISCHER, Luís Augusto. A rosa do povo in Leituras obrigatórias. Porto Alegre, Leitura XXI, 2002.
(Boa síntese dos principais aspectos e poemas deste livro clássico, indicado para o vestibular.)
LINS, Álvaro. A poesia de Drummond in Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1964.
(O primeiro trabalho crítico de alto nível sobre o autor mineiro, ainda que sintético.)
MERQUIOR, José Guilherme. Verso universo em Drummond. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975.
(Certamente a mais brilhante, complexa e sofisticada leitura da poesia de CDA.)
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Drummond, o gauche no tempo. Rio de janeiro, Lia Editor, 1972.
(Longa e profunda análise da poesia drummondiana, centrada especialmente nas suas imagens e procedimentos mais recorrentes.)
VÁRIOS AUTORES. Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.
(Conjunto de artigos e ensaios de inúmeros professores, críticos e escritores a respeito de nosso poeta maior. O resultado é irregular, mas alguns textos, como os de Antônio Houaiss, Otto Maria Carpeaux e Waltensir Dutra, são excelentes.)