Literatura Brasileira
  Lit. Conquistadores
  Barroco
  Arcadismo
  Romantismo
  Real/Naturalismo
  Parnasianismo
  Simbolismo
  Pré-Modernismo
  Modernismo
  Poesia Moderna
  Romance de 30
  Lit. Contemporânea
  Aula Virtual
  Livro do Mês
  Tema do Mês
  Textos Comentados
  Resumão




  Livro do Mês


Vidas Secas- Item 2

2. Motivos recorrentes

2.1 A força destruidora da natureza


A família sertaneja é vítima de forças naturais incontroláveis representadas pela seca. Outros romances já haviam tratado deste tema no século XIX. Porém, ao avesso de autores como Manuel de Oliveira Paiva (Dona Guidi-nha do Poço, 1890); Domingos Olympio (Luzia ho-mem, 1903); José Américo de Almeida (A bagaceira, 1928); e Rachel de Queiroz (O quinze, 1930); G.R. evita longas descrições do fenômeno, preferindo assinalar o seu reflexo na interiori-dade dos indivíduos que integram a família, inclusive a cachorra Baleia.

Assim, ao minucioso cenário naturalista, o escritor contrapõe algumas frases breves sobre a seca, insistindo sobremodo no “vôo negro dos urubus” como indicador da devastação e da morte por ela causada. No entanto, a seca é onipresente no texto. É ela que determina as duas migrações da família (Mudança e Fuga). É ela também que determina a instabilidade de Fabiano e sua gente: esses nunca sabem quanto tempo poderão perma-necer num local e quando deverão fugir dos efeitos do cataclisma.

De certa maneira, a instabilidade gerada pela seca não permite aos sertanejos estabelecer alguma lógica ou alguma idéia de continuidade para as suas existên-cias. Advém daí o fracasso dos retirantes em organizar o seu pensamento rústico e em construir nexos capazes de conferir sentido a seus atos e reações. Pode-se dizer que há um significado trágico na seca porque o homem não consegue derrotá-la, limitando-se a tentar sobreviver no meio inóspito. Como afirma Dácio A. de Castro, ela não atinge os seres apenas fisicamente, mas também lhes calcina a alma.

Dos outros ficcionistas, G.R. ultrapassa a questão da natureza inclemente como fator único para explicar a miséria econômica e mental do sertanejo. O mundo que aparece em Vidas secas é o do mais completo atraso social. Trata-se do mundo arcaico do latifúndio nordestino, anterior à modernização capita-lista, iniciada na década de 1930, e marcado por relações sócio-econômicas brutais e desumanas.

Exemplo destas relações primitivas aparece no capítulo Contas. Em poucas frases, o narrador revela o sistema implacável do latifúndio: “Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça parte dos cabritos. Mas como não tinha roça (...) comia da feira, desfazia-se dos animais, não chegava a ferrar um bezerro ou assinar a orelha de um cabri-to.” Por isso, o vaqueiro está sempre endividado com o patrão e quando vai acertar as contas recebe uma ninharia. “São os juros”, diz o proprietá-rio das terras, contrariando os cálculos que Sinha Vitória fizera com seu método de calcular, usando sementes diversas sobre o chão. Fabiano tenta protestar, mas o patrão ameaça-o e não resta ao sertanejo senão retrucar que a mulher se enganara nas contas. Depois, já sozinho, Fabiano experimenta uma revolta surda e nebulosa contra a fonte prin-cipal de sua infelicidade.

Outro exemplo de opressão ocorre no capítulo Cadeia. Observa-se aqui que não é somente o latifúndio que esmaga o sertanejo. O próprio Estado, cuja encarnação dá-se através do soldado amarelo, exerce o seu arbítrio na injusta prisão de Fabiano. Frente a tamanha prepotência, o vaqueiro demonstra simultaneamente a incapacidade de compreender a razão dos fatos (“Havia muitas coisas. Ele não podia explicá-las. (...) Nunca vira uma escola.”); a inconformidade sintetizada na aspiração ao cangaço (“Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam o soldado amarelo.”); e a resignação expressa na visão do futuro que espera seus filhos (“Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo”.) Tudo isso é apresentado em um monólogo de extraordinária complexidade, se levarmos em conta a indigência mental do protagonista.

É ainda o Estado opressor que surge na figura do cobrador municipal de im-postos. Este quer taxar um porco que Fabiano pretendia vender na cidade. Mais uma vez, o vaqueiro sente-se vítima de uma potência ameaçadora e estranha, localizada no espaço urbano e chamada governo, o qual utiliza seus agentes para explorá-lo e humilhá-lo. O que pode significar para o sertanejo, que vem de um universo despossuído de qualquer benesse do Estado, a cobrança de um imposto?

No capítulo O soldado amarelo, uma grande chance de vingança surge para Fabiano quando ele encontra o soldado perdido na caatinga. Este treme covardemente: sabe que a vida não vale nada no sertão e que, pelos códi-gos da honra sertaneja, Fabiano pode e deve vingar-se da humilhação sofrida. Porém, Fabiano vacila. Por um lado, matar o inimigo confir-maria para si próprio que era um verdadeiro homem; por outro lado, aquele traste de gente representava o governo. Talvez por isso mesmo, em dado mo-mento, Fabiano imagina ver o soldado crescendo, como num pesadelo:

Grudando-se à catingueira, o soldado apresentava apenas um braço, uma perna e um pedaço de cara, mas esta banda de homem começa-va a crescer aos olhos do vaqueiro. E a outra parte, a que estava escondida, devia ser maior. Fabiano tentou afastar a idéia absurda.

A decisão do vaqueiro de poupar o soldado amarelo advém menos da piedade ou de qualquer fraqueza pessoal. O que o impede de assassiná-lo é a identifica-ção do mesmo com o governo. Esta força onipotente, absoluta, que paira acima de todas as circunstâncias e que assusta, impede, pois, a vingança. “Governo é governo”, diz Fabiano, tirando o chapéu para o desafeto e ensinando-lhe o caminho, no desfecho do capítulo.

A imobilidade secular do universo rural manifesta-se através da noção de desti-no imutável que preside a consciência de Fabiano e a vida dos demais persona-gens. Várias vezes, no texto, repetem-se ações e pensamentos que confirmam esta inexorabilidade. No segundo capítulo, o narrador mostra que até no andar e nos gestos Fabiano reproduz os antepassados. No capítulo O menino mais novo, este tenta imitar o jeito do pai. Não há alternativas de fugir desta ordenação social, conforme pensa o vaqueiro em sua forma rústica de observar o mundo:

Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente co-nhecia o seu lugar. Bem. Nascer com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, con-sertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim. O avô tam-bém.

2.2 A animalização do humano

A hostilidade da natureza e os vários níveis de opressão do sistema rural arcaico parecem eliminar do vaqueiro e de sua família vários traços de humanidade, impelindo principalmente Fabiano a desconfiar de sua própria condição. Inúme-ras vezes, no transcurso da narrativa, ele se contempla como um bicho:

“Você é um bicho, Fabiano.”
“Estava escondido no mato como tatu. Duro, lerdo como tatu.”

Este processo de zoomorfização de alguma maneira é acentuado pela cachorra Baleia, já que esta se situa como protagonista pensante e com um nível de ex-pressão mental não inferior a da família sertaneja. Ou seja, vive-se em um uni-verso tão primitivo, tão sem horizontes que os homens e os animais se igualam intelectualmente.

Por seu turno, é verdade que Baleia se humaniza, sobremodo no capí-tulo que leva o seu nome e no qual ela acaba eliminada. Em toda a prosa áspera de G.R. é o único momento de alta poesia.

A tensão dialética entre a condição humana e a não-humana, que determina o significado do romance, é resolvida no último capítulo, quando todos os animais já morreram e a família segue em direção à cidade. Repare nas frases derradei-ras da obra:

E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão manda-ria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.

O termo “homem” certamente não designa gênero. Homens como sinha Vitó-ria? Homens como os dois meninos? Homem aqui tem outro sentido, o mesmo que Euclides da Cunha aplicou ao sertanejo. Representa força, capa-cidade de resistência, disposição voluntária para mudar a vida, vitória sobre as mais terríveis circunstâncias. Fabiano e seus familiares são homens e não bichos.



página anterior      próxima página
 Compras
 Mais Educação


» Língua Portuguesa

» Relações
    Internacionais


» História do Brasil

» História por
    Voltaire Schilling


» Almanaque

» Virtual Books

» Atlas Universal



 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade