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  Livro do Mês


Vidas Secas- cont. item 2

2.3 A carência da linguagem

Em Vidas secas há trinta e uma referências à questão da linguagem que se torna, assim, o motivo mais repetido no texto. O romance registra a ânsia pela linguagem dos sertanejos como uma ânsia pela superação da miséria e da solidão, e como a única forma para compreender um mundo que lhes parece caótico e ameaçador.

A impotência verbal da família sertaneja espelha o primarismo e a pobreza social de sua existência. Os personagens expressam-se preferencialmente por interjeições guturais, onomatopéias, resmungos, muxoxos, rugidos, gritos. Muitas vezes estas pobres articulações são substituídas por gestos, olhares, um simples espichar de lábios. Um crítico assinalou que a família lembra aqueles personagens de cinema mudo que precisavam gesticular muito para serem com-preendidos pelos espectadores.

Grunhidos e gestos traduzem, em sua rusticidade o analfabetismo, a inte-
rioridade rala, a dificuldade de ordenação lógica das coisas e também a econo-mia de energia em um cenário inóspito e o próprio isolamento do grupo por causa da profissão de Fabiano, vaqueiro solitário em largo território.

Praticamente não há diálogos entre os personagens. Várias cenas antológicas sobre a questão da incomunicabilidade aparecem no romance. Uma delas ocorre em Inverno, quando Fabiano e sinha Vitória começam a falar ao mesmo tempo, incapazes de ouvir um ao outro:

Não era propriamente conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências. Às vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo. Na verdade nenhum deles prestava atenção às palavras do outro: iam exibindo as imagens que lhe vinham ao espírito, e as imagens sucediam-se, deformavam-se, não havia meio de dominá-las. Como os recursos da expressão eram minguados, tentavam remediar a deficiência falando alto.

Ainda no mesmo capítulo, outro momento significativo dá-se quando o menino mais velho tenta entender uma história confusa contada pelo pai. Para isso pre-cisava ver o rosto do pai (seus olhares e expressões) porque só assim a narrativa tosca e mal articulada faria algum sentido. No entanto, como é noite, ele nada enxerga e termina adormecendo.

Igualmente importante é a justificativa que sinha Vitória elabora para abater o papagaio durante a primeira fuga: “... ele era mudo e inútil.” O pró-prio narrador comenta que o bicho não podia deixar de ser mudo, pois a família ordinariamente falava muito pouco. Ou seja, a mulher reluta em reduzir seu ato a uma mera luta pela sobrevivência e estabelece a mudez como elemento de não-humanidade.

Daí também o terror ao silêncio que o casal, por vezes, experimenta. O silêncio é a impossibilidade do encontro de um com o outro, a desolação da seca, a grande solidão, como nesta reflexão de sinha Vitória:

Apesar de ter boa ponta de língua, sentia um aperto no cora-ção.(...) Achava-se desamparada e miúda na solidão, necessitava um apoio, alguém que lhe desse coragem. Indispensável ouvir qualquer som. A manhã, sem pássaros, sem folhas e sem vento, progredia num silêncio de morte.

Conforme observou Dácio A. de Castro, a própria ausência de nomes dos meninos revela o processo de despersonalização e carência de linguagem a que a família foi submetida pelas injunções sociais.

Um dos aspectos mais emocionantes de Vidas secas nasce do fato de que os personagens (sobremodo Fabiano) são conscientes de sua po-breza verbal, admiram os que possuem a capacidade de comunicação simbólica e aspiram, quase que desesperadamente, à linguagem como fato libertador de sua condição semi-animalesca. Só a linguagem confere sentido humano à exis-tência.

Várias vezes, no relato, o vaqueiro atribui seu embotamento mental e sua de-simportância social à falta de instrução: “Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares.(...) Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embroma-ção. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior.”

A incapacidade de Fabiano em apreender o real é de tal ordem que a mais simples analogia verbal embaralha a sua cabeça. No capítulo O mundo coberto de penas, sinha Vitória afirma que as aves de arribação bebendo a água do rio quase seco iriam matar o gado. Para o vaqueiro aquilo não tem nenhuma lógica: como uma ave podia matar um boi ou uma cabra? Só depois de muitas reflexões titubeantes, ele consegue entender o raciocínio da mulher.

Fabiano nutre especial admiração pelo domínio que seu Tomás da bolandeira tinha das palavras. Deseja imitá-lo: “Em horas de maluqueira (...) diz palavras difíceis, truncando tudo (...). Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo”. Nas horas difíceis ele se vale de algumas expressões de seu Tomás, apenas que completa-mente desfocadas de sua verdadeira área semântica. O exemplo mais lembrado é quando ele responde ao convite do soldado amarelo para jogar cartas: “– Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É confor-me.

Mesmo sinha Terta, a benzedeira, merece do vaqueiro extrema consi-deração por saber usar as palavras. Se soubesse falar como ela, “procuraria serviço noutra fazenda, haveria de arranjar-se.” Tam-bém não ofenderia as pessoas sem intenção, com sua forma atabalhoada de dizer as coisas.

Belíssima é a passagem do capítulo O menino mais velho em que este procura saber o significado da palavra “inferno” e é escorraçado pela mãe. O menino “tinha um vocabulário quase tão minguado como o do papagaio e valia-se de exclamações e de gestos.” Para ele, conhecer o sentido da palavra representava ampliar sua mísera visão das coisas.

Esta noção de que a palavra é a via principal do conhecimento aparece outra vez no capítulo Festa em que os dois meninos olham assombrados para as coi-sas sem nome que compõem a realidade urbana:

“(...) provavelmente aquelas coisas tinham nomes. O menino mais novo interrogou-o com os olhos. (...) Puseram-se a discutir a questão intrin-cada. Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimentos. Livres dos nomes as coisas ficavam distantes, misteriosas. (...) Vistas de longe, eram bonitas. Admirados e medrosos, falavam baixo para não desencadear as forças es-tranhas que elas porventura encerrassem.”
A posse da linguagem é a condição do humano, todavia, não assegura automati-camente o triunfo do indivíduo e tampouco a sua inteireza moral. Fabiano percebe estes limites. Escandaliza-se, por exemplo, pelo fato de que seu Tomás da bolandeira não ter resistido à voragem da seca com o todo o seu saber. Além disso, o uso de certas palavras bonitas e incom-preensíveis por parte de gente da cidade associa-se em sua cabeça a alguma forma de exploração:
“... Sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado. Sobressaltava-se escutando-as. Evidentemente só servia para encobrir ladroeiras. Mas eram bonitas. Às vezes decorava algumas e empregava-as fora de propósito.”

2.4 Os sonhos

Um dos aspectos mais importantes do texto é que, mesmo criando personagens tão ínfimos em vida interior, G.R. conseguiu diferenciá-los com total nitidez. Cada parágrafo, como observou um crítico, é um estudo psicológico e “o leitor entra em contato com o real pelo ângulo de cada personagem enfoca-do.” Assim, vão se acumulando visões parciais que, no conjunto, constitu-em a maneira do sertanejo nordestino ver o mundo.

Uma das formas principais de delimitação psicológica dos protagonistas reside na investigação de seus pobres sonhos pessoais. São fantasias que compensam a aspereza do cotidiano.

Os sonhos de Fabiano passam pela idéia de felicidade familiar: “Ia chover. (...) Os meninos gordos, vermelhos brincariam no chiqueiro das cabras, sinha Vitória vestiria saias de ramagens vistosas.” Ou ainda pela supera-ção do primitivismo: “E andavam para o sul metidos naquele sonho. Uma cidade grande, cheia de pessoas fortes. Os meninos em escolas, apreendendo coisas difíceis e necessárias.”

Já o sonho célebre de sinha Vitória é possuir uma cama de couro e sucupira, igual à de seu Tomás da bolandeira. O do menino mais novo é um dia ficar igual a seu pai, Fabiano. Por fim, o do menino mais velho (e o mais pungente) é responder às questões que o silêncio dos pais deixa-vam em branco.

3. Um romance circular?

Há um consenso entre os críticos quanto à
circularidade perfeita
de Vidas secas. De fato, se tomarmos o relato do ponto de vista exclusivamente estrutural, veremos que, no primeiro e no último capítulo (Fuga e Mudança), observa-se a presença dos mes-mos elementos:

seca – retirada da família – sonhos de uma vida melhor

Isto configuraria uma situação reiterada, fazendo dos sertanejos nômades per-pétuos, condenados a vagar a cada situação de seca e a projetar uma nova vida, sempre frustrada pelas circunstâncias. O efeito da circularidade fundamenta, portanto, a inexorabilidade trágica do destino da família, destino que se repetiria incessantemente.

Um olhar sociológico, contudo, per-mite uma forte ressalva a essa conclusão. Ao partir para a cidade, Fabiano e os seus afastam-se de um mundo realmente fixo, sem qual-quer mobilidade social, e partem para uma outra dimensão sócio-econômica-cultural (a cidade moderna), onde as chances dos indivíduos transformarem a sua existência são extraordinárias, conforme a própria história do país nos re-velou durante parte considerável do século XX. Sob este ângulo, a circularidade de Vidas secas é rompida pela escolha final de Fabiano e Sinha Vitória.



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