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Vidas Secas- rural X urbano
Toda a obra romanesca de G.R. se articula no confronto entre a nova ordem urbana/capitalista (engendrada pela Revolução de 1930) e a estrutu-ra rural arcaica que imperava até então no país. Em Angústia, Luís da Silva, filho de uma família latifundiária decadente não se adapta ao mundo urbano e é arrastado ao crime e à dissolução psíquica. Em São Bernardo, Paulo Honório, apesar de seu espírito empreendedor, tem uma mentalidade primitiva e é destruído pelo contexto da modernização e pelo suicídio da mulher, Madalena, típica representante dos estratos urbanos, inclusive em suas contradições. Este choque entre duas civilizações é um dos aspectos nucleares de Vidas secas e aparece com destaque em alguns capítulos do relato. Em Cadeia, Festa e Contas, Fabiano é vitimado por sua ignorância e sua incapa-cidade verbal, sofrendo as ações impiedosas do soldado amarelo, do cobrador de impostos e do patrão (este representa o latifúndio, mas o seu saber é associado pelo vaqueiro à esfera urbana). Em tais momentos, Fabiano está ciente de sua inferioridade cultural e social, pois sabe que a consciência primitiva é impotente para alcançar a complexidade da vida citadina. Em Festa, sobretudo, G.R. traça com maestria a ida da família de ma-tutos até a cidadezinha engalanada. Não deixam de comover as roupas mal cortadas e mal feitas, os pés que sofrem com os calçados, a tentativa de um caminhar diferente por parte de Fabiano, a atrapalhação geral, a neces-sidade fisiológica de Sinha Vitória e a perplexidade dos meninos diante de coisas tão variadas e o espanto de Baleia frente às luzes da noite urbana. Nesta relação campo versus cidade é fundamental o último capítulo do roman-ce, quando a família sertaneja consegue se libertar do arcaísmo rural e avançar em direção à urbs. Em nenhum momento, G.R. confere a seus personagens uma consciência ideológica da marcha da História que os tira do mundo primitivo e os coloca na civilização moderna. Eles buscam a cidade apenas por instinto de sobrevivência. É uma saída otimista: o último romance do escritor é também o único em que se abre uma perspectiva ao ser humano.
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