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  Literatura Contemporânea


Autores contemporâneos - parte II

B) ROMANCE

ANTÔNIO TÔRRES (1940) Autor de pungentes narrativas centradas na desarticulação do universo familiar da zona rural face à modernização vivida pelo país, Antônio Tôrres, em suas obras principais – Um cão uivando para a lua (1972); Os homens de pés redondos (1973); Essa terra (1976); Carta ao bispo (1979) –, registra de maneira até certo ponto desconexa (mas profundamente dramática) o desenraizamento de jovens que abandonam o seu velho mundo agrário e buscam a sorte na cidade. Incapazes de se adaptar à vida nas metrópoles, ou realizando uma adaptação degradada, esses personagens experimentam o sofrimento e a perda da identidade. Por condensar os grandes temas de sua obra, Essa terra talvez seja o romance mais importante do autor. A destruição da pequena propriedade no interior baiano, a derrocada da estrutura familiar, a loucura da mãe, o suicídio de um dos irmãos, a fuga das irmãs, uma amigada, outra prostituídas, toda essa tragédia estrutura-se em uma prosa quase selvagem, por meio de capítulos fragmentários, com várias vozes narrativas, como se o colapso daquele mundo sócio-histórico estilhaçasse a própria organização formal do romance.

FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA (1944). Ícone da música popular brasileira, Francisco Buarque de Holanda sempre teve uma relação muito próxima com a literatura. Nos idos de 1970, publicou uma novela alegórica, Fazenda modelo (1974), que não chegou a despertar maior entusiasmo. No entanto, a partir de Estorvo (1991), a que se seguem Benjamim (1995) e Budapeste 2003), o grande compositor revelou-se também importante ficcionista. Valendo-se de uma prosa áspera, mas de alta densidade estilística, passou a explorar algumas das questões nucleares vividas pela sociedade brasileira contemporânea.

Em Estorvo, o personagem, depois de ver pelo olho mágico um rosto misterioso, resolve fugir de seu apartamento sem motivo claro para isso. Dominado por intensa sensação de mal-estar, ele começa então sua peregrinação absurda por uma cidade hostil e violenta. Vai até a casa da irmã, em um condomínio de luxo, onde rouba as jóias da família. Depois procura o sítio da própria família em busca de paz, mas lá encontra uma gente dominada pelo tráfico. Tudo parece corrompido e a sociedade vive sob o “signo da delinqüência” (Roberto Schwarz). Mesmo o mundo objetivo é freqüentemente deformado e degradado pelas alucinações do protagonista. Trata-se de uma representação literariamente complexa (posto que arrasadora) da desagregação social da vida urbana brasileira.

Em Benjamim, aparece a temática da fragmentação e duplicação da personalidade além do motivo da busca da celebridade a qualquer preço. Estes assuntos seriam retrabalhados com melhor consistência e forte dimensão irônica em Budapeste, o romance mais popular de Chico Buarque. Nele, a história de um ghost-writer, o anônimo escritor José Costa, que pára por acaso em Budapeste, desencadeia um engenhoso questionamento sobre realidade e aparência, verdade e impostura, irrelevância e transcendência dentro de uma cultura pasteurizada e consumista em que todos buscam a fama e a glória, ainda que efêmeras.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO (1936). Ficcionista paulista de renome internacional, cronista de largo público, emérito agitador cultural, Ignácio de Loyola Brandão é autor de uma obra diversa – Depois do sol (contos, 1965); Bebel que a cidade comeu (romance, 1968); Zero (romance, 1975); Cadeiras proibidas (contos, 1976); O beijo não vem da boca (romance, 1986); etc. Se em seus primeiros livros predominava um realismo de feição tradicional para expressar o mundo urbano, em Zero (publicado primeiro na Itália devido a sua proibição no Brasil) o escritor subverte completamente a estrutura romanesca e cria uma obra desconcertante. A visão caleidoscópica da cidade de São Paulo surge de uma espécie de enumeração caótica em que fatos relevantes e irrelevantes se misturam de forma desordenada, em que desenhos, gráficos e poemas permeiam os capítulos fragmentários, dando a impressão viva de um universo decomposto, atomizado e sem saída. O impacto de Zero foi de tal ordem que, por comparação, as obras posteriores de Ignácio de Loyola Brandão foram injustamente minimizadas.

JOÃO GILBERTO NOLL (1946) Em suas principais novelas – Bandoleiros (1965); Rastros de verão (1986); Hotel Atlântico (1989); Harmada (1993) e Lord (2004) – João Gilberto Noll vem criando um universo desolado em que personagens anônimos vagam pelas ruas das grandes metrópoles, sem passado, sem futuro e sem qualquer destino a cumprir. Atormentados pela solidão e pelo desejo físico, percebendo a realidade por meio de fragmentos e vivendo quase que exclusivamente na dimensão interior, esses protagonistas submergem no vazio, no sexo, na loucura e na idéia da morte. Como não encontram qualquer saída, resta-lhes apenas a eterna errância. Esse motivo, o do homem desenraizado e desesperançado – básico da literatura moderna ocidental – encontra na ficção de João Gilberto Noll uma de suas mais complexas traduções no Brasil.

JOSUÉ GUIMARÃES (1921-1986). Discípulo de Erico Veríssimo, do qual herdou o gosto pelo romance histórico, Josué Guimarães é autor de A ferro e fogo, romance em dois volumes – Tempo de solidão, 1972, e Tempo de guerra, 1975 – , espécie de saga da colonização alemã no Rio Grande do Sul durante o século XIX, centrada na luta cotidiana da família Schneider para se adequar ao Novo Mundo. Já em Os tambores silenciosos (1975), o autor realiza uma síntese feliz entre narrativa de costumes interioranos e sátira política, situando a ação do romance na conflituosa década de 1930. Contudo, sua obra máxima, em que pese eventuais problemas de estilo, é um relato urbano – Camilo Mortágua (1980) – construído dentro dos parâmetros do realismo tradicional do século XIX (o drama do indivíduo traduzindo o drama da classe social que ele representa), mesclado a uma situação absurda, pois o protagonista vê na tela de um cinema o filme ( sonho?alucinação?) que apresenta a história de sua própria vida.

LYA LUFT(1938) Filiada à tendência introspectiva da ficção brasileira, Lya Luft revela grande capacidade de investigar a psicologia das personagens femininas que predominam em seus principais romances – As parceiras (1980); A asa esquerda do anjo (1981; Reunião de família (1982); Quarto fechado (1984). Estas mulheres dividem-se entre as solicitações da velha ordem patriarcal, representadas pela estrutura familiar, e um fundo desejo de ruptura e libertação. Desse debate, resultam os conflitos nucleares que estruturam as narrativas da autora, sempre caracterizadas por um estilo de alto refinamento e vigor lírico. No início do século XXI, Lya Luft voltou-se para a crônica, produzindo textos curtos – sem renunciar a sua linguagem sofisticada – em que discute o sentido da vida, do amor e da felicidade. Estas crônicas, reunidas em Perdas e ganhos (2003) e Pensar é transgredir (2004), tornaram-na uma das autoras mais lidas no Brasil atualmente.

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL(1945) – Voltado estritamente para o romance histórico, Assis Brasil vem produzindo uma obra em que procura examinar o passado legendário do Rio Grande do Sul, estado fronteiriço marcado por intermitentes conflitos bélicos e longas guerras civis. A ótica do romancista é sempre desmistificadora, seja na fixação da colonização açoriana (Um quarto de légua em quadro, 1976), ou no registro da Revolução Farroupilha (A prole do corvo, 1978), ou no exame do episódio dos Muckers (Videiras de cristal, 1990), ou ainda na implacável crítica aos caudilhos ilustrados, sob a forma de uma trilogia, espécie de anti-O tempo e o vento (Um castelo no pampa, 1992-1994). Mesmo nos relatos em que os fatos históricos são mais ou menos irrelevantes e o que importa é tão somente o drama humano (Manhã transfigurada, 1982; As virtudes da casa, 1985; Concerto campestre, 1997), o escritor descreve rigorosamente as circunstâncias objetivas do passado (comportamentos e costumes) – sempre através de uma visão crítica – construindo um quadro vivo da sociedade gaúcha em seus primórdios. Estilisticamente, Assis Brasil atém-se aos padrões tradicionais da grande narrativa realista do século XIX e sua linguagem é elegante e precisa.

MÁRCIO SOUZA (1946) Escritor amazonense, conquistou os leitores brasileiros em 1975, com o lançamento daquela que é, até hoje, a sua melhor obra, Galvez, imperador do Acre. Em meio à crise formal da época, Márcio Souza encontrou na ficção de Oswald de Andrade um modelo para seu romance. Assim, a história de Galvez é narrada sob o signo da desintegração do realismo, mediante a utilização pelo autor da paródia, da elipse, da fragmentação dos capítulos e de um humor anárquico e debochado. Galvez é um pícaro espanhol, aventureiro sem eira nem beira, e que termina servindo de instrumento do interesse das autoridades brasileiras e dos proprietários de seringais em realizar a conquista do Acre. No poder, Galvez começa a tomar algumas medidas a favor dos índios da região, passando a constituir-se em um estorvo para os novos donos do território que precisam derrubá-lo. A sátira feroz associada às inovações estruturais garantem a atualidade do romance, o que infelizmente não acontece com as demais obras do autor.

NÉLIDA PIÑON (1937) Contista e romancista carioca, Nélida Piñon vincula-se, em suas primeiras obras, – Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (1961); Fundador (1969); A casa da paixão (1972) Tebas do meu coração (1974) – à tendência da ficção introspectiva. Em linguagem complexa e rica de efeitos sugestivos, a autora constrói um mundo em que predominam a tensão interior e ambivalência dos protagonistas e a fluidez da realidade externa. No entanto, com a publicação de A república dos sonhos (1984), Nélida Piñon aproximou-se da vertente mais realista e tradicional de ficção, produzindo um belíssimo texto sobre a vida dos imigrantes galegos no Brasil, naquele que é, provavelmente, o melhor romance brasileiro da década de 1980.

OSMAN LINS (1924-1978) Ficcionista de bem sucedidas obras realistas com forte teor psicológico – Os gestos (contos, 1957) e O fiel e a pedra (romance, 1961) – Osman Lins causou grande impacto nos meios letrados com a publicação do romance Avalovara (1973), obra de cunho experimental e vanguardista, na trilha de certos relatos do argentino Julio Cortazar, então no auge de seu prestígio. Em meio à crise estética e ideológica que varria a ficção nacional nos idos de 1970, Avalovara foi uma referência quase tão poderosa como Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Contudo, o cerebralismo excessivo e uma certa artificialidade narrativa tornam este romance atualmente – a exemplo de outras obras inovadoras daquela época – quase ilegível. Em 1977, Osman Lins realizou contundente ataque aos delírios teóricos de alguns professores de literatura (de Faculdades de Letras e de certos colégios) e também a muitos alunos que chegavam aos cursos de Letras totalmente ignorantes, publicando Problemas inculturais brasileiros, obra que segue bastante atual em suas denúncias.

RADUAN NASSAR (1935). Ficcionista nascido no interior de São Paulo, Raduan Nassar constitui um caso por ter experimentado largo sucesso imediatamente após a publicação de suas duas novelas – Lavoura arcaica (1976) e Um copo de cólera (1978) – e por ter, em seguida, renunciado à criação literária, entregando-se a atividades no ramo agrícola. Em 1997, voltou à cena com o lançamento de um razoável livro de contos (Menina a caminho). Depois, outra vez, retornou ao silêncio. Sua obra é bastante singular, tanto na linguagem de forte presença lírica (metáforas, ritmo poético, certo tom sentencioso, aproximação formal dos versículos bíblicos), quanto no temas (desintegração da família patriarcal, quebra das tradições morais dos imigrantes de origem libanesa, mergulho nas paixões interditas, sentimento de culpa e pressões da consciência religiosa). Dessa fusão entre estilo original, dramas familiares, referências bíblicas e mundo sócio-histórico em crise nasceram Lavoura arcaica e Um copo de cólera, novelas cultuadas por quase toda a crítica universitária brasileira.

Finalizando pode-se destacar, entre os romancistas mais recentes, os nomes de Ana Miranda, que vem produzindo uma série de romances históricos de boa fatura, ainda que formalmente convencionais – Boca do inferno (1989); Última quimera (1995); Bernardo Carvalho, criador de narrativas de alta sofisticação – Onze (1995); Os bêbados e os sonâmbulos (1996) e Teatro(1998) – nas quais uma realidade, invariavelmente labiríntica, arrasta os protagonistas à busca de uma identidade quase sempre velada e movediça; Charles Kiefer, que, em novelas de vigoroso teor realista – O pêndulo do relógio (1984) e Valsa para Bruno Stein (1986) – , faz um inventário da expulsão do homem do campo pela mecanização da lavoura e pela introdução da cultura da soja no sul do país; José Clemente Pozenato que, em seu melhor relato – O quatrilho –, apresenta os costumes e a existência cotidiana dos filhos de imigrantes italianos na região da serra gaúcha, nos primórdios do século XX; José Roberto Torero, que vem renovando o romance histórico brasileiro mediante uma visão corrosivamente humorística do passado, como se pode observar em O chalaça (1994) e Terra papagalli (1997); Milton Hatoum que, com duas complexas e brilhantes narrativas – Relato de um certo Oriente(1989) e Dois irmãos(2000) –, incorpora a região amazônica à ficção ultra-contemporânea sem nenhum traço de exotismo, preferindo mostrar o conflito íntimo e a crise familiar do que os aspectos exteriores da vida selvática; Roberto Gomes, ficcionista catarinense, autor, entre outras obras, de uma delicada evocação ficcional dos anseios existenciais e políticos da juventude urbana dos anos 60, Antes que o teto desabe(1981) e de um violento romance sobre o conflito agrário no sudoeste do Paraná, Os dias do Demônio (1995); Salim Miguel, emérito contista mas que encontra no romance – Nur na escuridão(1999) – as possibilidades plenas de um relato centrado na memória (sua grande obsessão), trazendo à tona a vida dos imigrantes sírio-libaneses em Santa Catarina; Silviano Santiago, um dos mais lúcidos teóricos da literatura brasileira, poeta e contista bissexto, autor de uma instigante narrativa – Em liberdade(1981) – em que Graciliano Ramos, no intervalo de sua saída da cadeia e a instauração do Estado Novo, escreve um diário ao qual dá o nome de Em liberdade. Inventado por Silviano Santiago este diário resulta não só de uma rigorosa pesquisa factual, mas de uma tentativa bem-sucedida de reproduzir o estilo áspero do autor de Vidas secas; e, por fim, Tabajara Ruas que, apesar de ser mais conhecido como autor de romances históricos em que focaliza o passado sul-rio-grandense – Os varões assinalados(1985) e Netto perde sua alma (1995) –, revela-se sensível criador de uma novela de formação, Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez (1990).



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