|
Autores contemporâneos - parte III
Embora haja um significativo número de obras ficcionais de natureza memorialística, o gênero das memórias propriamente dito nunca foi praticado em grande quantidade no Brasil. Algumas exceções são as obras de Oswald de Andrade (Um homem sem profissão, 1954), Graciliano Ramos (Memórias do cárcere,1954), José Lins do Rego (Meus verdes anos, 1956 ). A partir da década de 1970, todavia, assistiu-se ao lançamento de importantes produções desse gênero em que o escritor evoca tanto o seu passado pessoal quanto o seu tempo histórico. Entre elas destacam-se Solo de clarineta, de Erico Verissimo, Navegação de cabotagem, de Jorge Amado e, em especial, os seis volumes das memórias de Pedro Nava (1903-1984), Baú de ossos, Balão cativo, Chão de ferro, Beira-mar, Galo-das-trevas, O círio perfeito (1973 -1983) Obra-prima do gênero no Brasil, este conjunto de textos é uma magnífica reconstituição de tudo aquilo que se pode entender por civilização mineira (passado tradicional, valores rígidos, famílias de antiga linhagem, com suas glórias e seus silêncios, sua grandeza e suas perversões). O estilo barroco, quase ornamental, impregnado de lirismo e de dramaticidade, e a “disposição imaginosa dos acontecimentos”(A. Candido) transformam as memórias de Pedro Nava numa espécie de exuberante romance sobre um mundo morto que renasce pela magia verbal do escritor. No fim da década de 1970 e início dos anos 80, com o processo de redemocratização em curso, vieram à luz dezenas de evocações do período politicamente sombrio da ditadura. O que é isso, companheiro (1970), de Fernando Gabeira, e Os carbonários (1980), de Alfredo Syrkis, são as obras melhor elaboradas de um amplo conjunto de títulos interessantes do ponto de vista histórico ou do drama humano que expressam, mas esteticamente menores. O livro de Fernando Gabeira tem como núcleo a ação guerrilheira, cuja culminância dá-se com o seqüestro do embaixador norte-americano no Brasil (197 ). O de Alfredo Syrkis focaliza o dia-a-dia de um aparelho “subversivo” e o isolamento social de seus integrantes, quase todos muito jovens e despreparados para a vida clandestina. Além da temática, essas duas obras memorialísticas apresentam em comum a visão de que a tentativa de derrubar o governo militar pela guerrilha fora um grave erro político. Os reflexos no cotidiano familiar do desaparecimento do pai – assassinado nos porões do regime – constituem a base do sensível relato de Marcelo Rubens Paiva, Feliz ano velho, notável êxito editorial dos anos 80. Mais tarde, esse autor trocou as memórias pela ficção, mas não conseguiu alcançar a mesma simplicidade e mesma força de comoção de sua obra de estréia. Literariamente, o texto mais significativo entre todos os depoimentos sobre o período militar é o de Flávio Tavares – Memórias do esquecimento – publicado em 2002, quando o assunto da resistência armada à ditadura já não despertava tanto interesse. Apesar de suas revelações serem até certo ponto decepcionantes – dada a proeminência política do autor na época retratada –, a evocação das experiências pessoais (principalmente as da tortura), é realizada com apreciável profundidade psicológica e estilo extremanente elaborado. Confirmando seu gosto por um tipo de memórias em que os fatos históricos, a linguagem literária e mesmo a dimensão ficcional se juntam, o autor lançou, em 2004, o fascinante O dia em que Getúlio matou Allende. Ainda na esfera das memórias de base política, mas com escrita literária, o contista Sergio Faraco surpreendeu o país com a publicação de Lágrimas na chuva (2002). Na obra, Faraco mergulha nas lembranças amargas de sua estada na antiga União Soviética, na condição de estudante de Sociologia. A paixão que nutre por uma jovem soviética faz com que seja olhado com desconfiança pelos membros do Partido Comunista. Encarcerado em um hospital psiquiátrico para dissidentes políticos, conhece o desespero e possibilidade da loucura e da morte. Os horrores da repressão soviética (já em plenos anos de 1960), o aniquilamento do ser como forma de dissuasão política e o amor impossível entre um jovem brasileiro e uma moça russa conferem ao texto uma rara densidade emocional. PARA SABER MAIS HOHLFELDT, Antonio. Conto brasileiro contemporâneo. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1981. (Amplo painel do conto brasileiro dos anos de 1960 e 1970.) DACANAL, José Hildebrando. O em Ensaios escolhidos. Porto Alegre, Leitura XXI, 2003. (Lúcida interpretação da crise ficcional dos anos de 1970, feita no calor da hora). SILVERMANN, Malcolm. O novo conto brasileiro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. (Introdução didática sobre o conto brasileiro, apresentando sempre um relato de cada autor estudado).
|