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João Cabral de Melo Neto - parte II
As produções iniciais de João Cabral de Melo Neto, contudo, ressentem-se de uma matéria-prima mais significativa. Apenas com o poema longo O cão sem plumas a linguagem depurada parece encontrar uma temática a altura: o rio Capibaribe, rio-detrito, com sua sujeira, seus detritos com a população miserável que lhe habita as margens, trágico espelho do subdesenvolvimento: (...) Aquele rio era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor de rosa, da água do copo de água, da água do cântaro, dos peixes de água, da brisa na água. Sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem. Sabia da lama como de uma mucosa. (...) Aquele rio jamais se abre aos peixes, ao brilho, à inquietação de faca que há nos peixes. (...) Abre-se em flores pobres e negras como negros. Abre-se numa flora suja e mais mendiga como são os mendigos negros. (...) Na paisagem do rio difícil é saber onde começa o rio; onde a lama começa no rio; onde a terra começa da lama; onde o homem, onde a pele começa da lama; onde começa o homem naquele homem.
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