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João Cabral de Melo Neto - parte III
A sua obra mais conhecida (por causa da montagem teatral) é Morte e vida severina, que traz como subtítulo: Auto de Natal pernambucano. Isso confere ao texto uma marcante duplicidade: é lírico na linguagem, mas narrativo e dramático no encadeamento das cenas e na apresentação direta dos personagens através de diálogos e monólogos. O estilo despojado de João Cabral de Melo Neto realça ainda mais o aspecto pungente do assunto: a trajetória de Severino, um migrante que abandona o sertão rumo ao litoral, encontrando nesta longa viagem apenas a morte. Este sertanejo, a exemplo dos personagens dos autos medievais, é um tipo, encarnando de maneira genérica as características de uma classe social. Assim, seu sofrimento é o de toda a sua gente. Da mesma forma, a morte, que o espreita e persegue, é morte que ataca a todos os pobres da região, “mesma morte Severina”. Cabe ao próprio Severino apresentar-se no início da obra: (...) Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, (...) E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado de cinza. Mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhoritas e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra. Em sua trajetória rumo á cidade, o sertanejo encontra os irmãos das almas que conduzem um cadáver. Severino acaba tomando o lugar de um deles na condução de um defunto. Pouco a pouco, vai percebendo que apenas os que fazem da morte “ofício ou bazar” conseguem trabalho: rezadeiras, farmacêuticos, coveiros, etc. Na continuação de sua caminhada, assiste a um enterro de um trabalhador. Ouve, então, o que os amigos do morto dizem no cemitério: - Essa cova em que estás, com palmos medida, é a conta menor que tiraste em vida. - É de bom tamanho, nem largo nem fundo, deste latifúndio. - Não é cova grande, é cova medida, é a terra que querias ver dividida. - É uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo. - É uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo. - É uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca. (...) Severino continua o seu roteiro até chegar ao Recife. Lá ouve a conversa de dois coveiros. Um deles diz a respeito dos sertanejos que vinham de fora para morrer na capital: “Não é viagem o que fazem, / vindos por essas caatingas, vargens; / aí está o seu erro: / vem é seguindo o seu próprio enterro.” O retirante percebe e percebe então a absoluta precariedade de sua condição humana e resolve se suicidar. Antes disso, dialoga com um tipo pobre da cidade, José, mestre carpina, a respeito da fundura do rio Capibaribe. Neste momento, o mestre carpina recebe a notícia do nascimento de um filho. Severino o acompanha. Há uma espécie de auto dentro do auto: vizinhos, amigos e ciganas vem “adorar” e levar presentes ao menino recém nascido, como se ele fosse o próprio Cristo, revivido em Pernambuco. Severino assiste a tudo. E, por fim, o mestre carpina encerra o poema, respondendo ao retirante que aquela vida - mesmo sendo franzina - era a prova da resistência de todos os severinos do Nordeste contra a morte: (...) E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê-la brotar como há pouco em nova vida explodida; mesmo quando é assim pequena, a explosão como a ocorrida; mesmo quando é uma explosão como a de há pouco, franzina; mesmo quando é a explosão de uma vida severina.
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