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Videiras de Cristal - parte I
Videiras de Cristal Ao lado de A ferro e fogo, de Josué Guimarães, Videiras de cristal, de Luiz Antonio de Assis Brasil assinala a culminância (pelo menos nos últimos 30 anos) de uma espécie narrativa que encontrou, sobremodo no Rio Grande do Sul, terreno fértil para se desenvolver: o romance histórico. A grandeza e o caráter sanguinário do passado rio-grandense, o notável interesse do público local pelo gênero e as ressonâncias indeléveis na memória popular e na tradição literária culta de O tempo e o vento, de Erico Veríssimo, parecem explicar a estima que os ficcionistas gaúchos dedicam aos temas do passado. Aliás, desde o início de sua carreira, L. A. de Assis Brasil fizera uma opção por relatos que focalizavam tempos não vivenciados pelos autor. Esta é a característica mais singela para a delimitação da novela histórica, a qual exige, obviamente, uma reconstituição mais ou menos fidedigna do passado através de sólida pesquisa e a fecundação desta matéria pela imaginação ficcional do romancista. Pode-se afirmar que Luis Antonio de Assis Brasil sempre equilibrou de maneira competente a história e a invenção. Assim, ao abordar o episódio dos muckers, ele já trazia em sua bagagem pessoal um conjunto expressivo de relatos no gênero. Porém, excetuando-se Um quarto de légua em quadra, em que a imigração açoriana era ela própria o motivo central do romance, e A prole do corvo, em que a Revolução Farroupilha influenciava diretamente a vida das personagens, nas demais criações romanescas, os fatos históricos eram, até certo ponto irrelevantes, ou seja, os destinos individuais sobrepunham-se nitidamente ao contexto. Entretanto, em Videiras de cristal, o romancista trouxe para o núcleo narrativo um acontecimento de alta significação do passado provincial, sujeito à várias e polêmicas interpretações, que foi o confronto que ensangüentou as colônias alemãs da região do Vale do Rio dos Sinos, entre os anos de 1872 a 1874. O registro de quaisquer acontecimentos decisivos de determinada formação histórica exige sempre do escritor uma escolha. Ele pode submeter os fatos a uma concepção pré-estabelecida da história, isto é, a uma visão de mundo coerente e totalizante, mas não isenta de complexidade, como o fizeram Tolstói e Erico, por exemplo. Ou então, pode apresentar estes fatos sem um ponto de vista ideológico unívoco, expondo visões contraditórias e multiplicidade de planos e dando-lhes importância equivalente, a tal ponto que nenhuma idéia ou nenhuma explicação dos acontecimentos triunfe sobre as demais. Não se estabelece, desta maneira, uma verdade única, como se a essência mesma da realidade fosse incognoscível É o que o Baktin, em seu célebre estudo sobre a obra de Dostoiévski, chamou de polifonia e cujo exemplo mais acabado, em termos contemporâneos, são alguns romances de Mario Vargas Llosa.
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