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  Literatura Contemporânea


Videiras de Cristal - parte II


Luiz Antonio de Assis Brasil escolheu o segundo caminho, procurando evidenciar os inúmeros olhares a respeito de um conflito que até hoje nos parece absurdo. Desta forma faz soar em seu relato um vozerio dissonante, através do qual os diversos grupos sociais envolvidos na luta encontram sua representação individual, humanamente rica e dramaticamente verossímil. O ficcionista não toma partido, não opta por uma idéia que explicasse as circunstâncias e unificasse todo o material de sua ficção. Ao contrário deixa as visões antagônicas, expressas pelos protagonistas, se confrontarem de maneira equivalente. Claro que os riscos desta polifonia são o caos narrativo e a incapacidade do romancista em oferecer ao leitor uma visão minimamente racional sobre o narrado. Assis Brasil, contudo, sai-se muito bem do desafio, à medida que contrapõe aos incontáveis pontos de vista opositivos que povoam a sua obra, uma coerente e meticulosa fixação dos episódios que antecipam e desencadeiam a guerra, sem contar a esplêndida narração das batalhas entre os soldados do exército e os adeptos de Jacobina. Quer dizer, enquanto as personagens debatem as suas concepções e, tomadas de fanatismo, se odeiam e se matam, o escritor reconstitui detalhadamente os eventos, quase como numa reportagem. Com isso mantém uma estrutura capaz de unificar e dar lógica ao conjunto de ações irracionais dos protagonistas, cegos por suas crenças simplistas e retilíneas acerca do confronto. Quase todos* tomam partido, menos Assis Brasil, que vê a guerra apenas como truculência, horror e morte, salvando-se tanto da visão oficialista quanto da visão revisionista, esta última acenada pateticamente por alguns intelectuais de esquerda que sonham transformar Jacobina numa mártir da causa revolucionária.

Em Videiras de cristal, mais do que protagonista, Jacobina Maurer é um espectro que envolve e domina avassaladoramente o romance. As pregações messiânicas e os fatos desencadeados por esta mulher, todos turbados pela cegueira da intolerância e pelas paixões mais incontroláveis, acabam determinando as existências individuais que o ficcionista põe em cena. O interessante é que ela, sob forma direta, pouco aparece no entrecho, sendo muito mais uma referência positiva ou negativa para as demais personagens que vão, através de suas próprias consciências, falas e ações produzindo uma imagem contraditória e mitológica desta colona semi-analfabeta, visionária e carismática, transformada ao mesmo tempo na grande mãe dos desgarrados e na grande cadela capaz de hipnotizar a turba ignorante, conduzindo-a ao assassinato e à destruição.

O narrador onisciente recusa-se a penetrar na interioridade de Jacobina, apresentando-a tão somente pelo olhar dos outros e por algumas falas em que ela expõe a sua religiosidade primária e apocalíptica. Até mesmo seu erotismo (beijava muitos homens na boca e traía explicitamente o marido) permanece envolto numa aura difusa. Num certo sentido, frau Maurer exerce a função de Napoleão, em Guerra e paz: fonte primeira dos acontecimentos e referência contínua das personagens. Porém, ficcionalmente, não é a personagem principal do romance, como tampouco o é Antônio Conselheiro, em A guerra do fim do Mundo, de Vargas Llosa, ou menos ainda as inúmeras personalidades históricas sul-rio-grandenses que aparecem em O tempo e o vento. O equívoco foi alimentado pelo medíocre filme de Fábio Barreto (A paixão de Jacobina). Muito mais importantes sob o prisma da invenção e da realização artística são, por exemplo, Elizabeth Carolina Mentz e Ana Maria Hofstäter.

A primeira, casada com um irmão de Jacobina, trai o marido com um católico, o inspetor João Lehn, e resolve purgar o adultério, servindo à cunhada, no morro do Ferrabrás. A culpa mesclada com o desejo e a saudade do inimigo a atormentam. Quando João Lehn sofre, pelas mãos dos muckers, um atentado que o vitimará, Elizabeth Carolina aproxima-se sorrateiramente da casa do ex-amante para espreitar sua agonia e dá-se conta de que gostaria de morrer com ele e de que a paixão proibida a consumiria para sempre. É uma cena antológica: o amor pulverizando ódio e o pecado.
A segunda, Ana Maria, trabalha como babá e criada de Jacobina, desenvolvendo uma intensa devoção pela patroa. Estuprada por bandidos, apaixona-se por Haubert, um jovem que vive entre os muckers, mas que, mais tarde, será entregue a um tutor em São Leopoldo, transformando-se então num inimigo dos fanáticos. Para desespero de Ana Maria, Jacobina autoriza o seu assassinato. A criada jura vingança e, no final do relato, receberá da própria líder do Ferrabrás, Leidard, a sua pequenina filha dileta, para matá-la. Assim, Ana Maria poderá expiar o seu rancor e morrer em paz. É grande literatura.

Já as personagens masculinas, como acontece com alguma freqüência na obra de Luiz Antonio de Assis Brasil, são inferiores em complexidade psicológica, mas, em compensação, são mais representativas socialmente. O pastor Boeber, encarnação da intransigência luterana, o pastor Klein, dilacerado entre a heresia e a religião oficial, Jacó-Mula que mostra o ponto de vista dos “de baixo”, dos simples que aderiram aos muckers, sintetizam em seus atos e pensamentos algumas das principais tendências que se chocarão na zona colonial alemã. Figura estranha ao romance e único protagonista inverossímil é o jovem psiquiatra alemão Cristiano Fischer que adere (inexplicavelmente) aos fanáticos. Sua irrealidade, no entanto, não diminui as virtudes estéticas de Videiras de cristal que, em pesquisa promovida entre quarenta intelectuais do estado, no início dos anos 90, foi considerado um dos dez melhores romances sul-rio-grandenses de todos os tempos.

*A exceção é o padre alemão Mathias Münsch que passa da mais radical intransigência à concepção do conflito como uma tragédia dos erros gerados pela intolerância religiosa. De certa forma, o jovem padre, que morre no final, parece traduzir a perspectiva do romancista sobre os acontecimentos.



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