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Ferreira Gullar - parte I
VIDA José Ribamar Goulart Ferreira nasceu em São Luís do Maranhão, o quarto filho do dono de uma quitanda na cidade. Ferreira Gullar (nome adotado em 1948) fez os seus básicos no Colégio São Luís Gonzaga. Dotado de bela voz, trabalhou como locutor numa emissora da capital. Em 1951, cheio de ambições literárias transferiu-se para o Rio de Janeiro. Tornou-se revisor da célebre revista O cruzeiro e, em 1954, publicou sua primeira obra A luta corporal. Em seguida aderiu ao Concretismo. Em 1958 fundou o grupo Neoconcreto no Rio de Janeiro. No começo da década de 1960, participou do Centro Popular de Cultura da extinta UNE, cujo projeto era levar a arte (sempre politizada) aos estratos sociais mais pobres do país. O golpe de 1964 desarticulou por completo este movimento. Em1968, após a edição do A.I.5, Ferreira Gullar foi preso juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mudou-se então para Paris, depois para Santiago do Chile, onde vivenciou o golpe do general Pinochet contra o presidente Salvador Allende, e por fim se estabeleceu em Buenos Aires. Na capital argentina escreveu sua obra-prima, Poema sujo. Absolvido pelo STF, regressou ao Brasil em 1977 e foi trabalhar na tevê Globo, escrevendo roteiros para seriados como Aplauso e Carga pesada. Após o falecimento de João Cabral de Melo, Ferreira Gullar converteu-se na principal voz da lírica contemporânea brasileira. OBRAS PRINCIPAIS: A luta corporal (1954); Dentro da noite veloz (1975); Poema sujo (1975); Na vertigem do dia (1980); Barulhos (1987); Muitas vozes (1999). Ferreira Gullar estreou muito jovem com A luta corporal. “O nome do livro – diz o poeta – não é por acaso: era uma luta comigo mesmo. Na minha busca terminei fragmentando a linguagem. Achava que a linguagem era uma realidade. Desarticulei-a para encontrar essa realidade: ela não tinha essência nenhuma.” Logo em seguida, o autor maranhense aproxima-se dos concretistas de São Paulo. Contudo, abjura-os em pouco tempo. Após esta ruptura, e sob o influxo da radicalização ideológica do início dos anos 60, vincula-se ao pensamento progressista da época, todo ele ligado às formulações populistas do presidente João Goulart. Rapidamente Ferreira Gullar torna-se um dos porta-vozes dos artistas politicamente engajados daquela década. Publica então dois polêmicos livros de ensaios Cultura posta em questão (1965) e Vanguarda e subdesenvolvimento (1969). Também o teatro o atrai. Ajuda a fundar o grupo Opinião e escreve com Oduvaldo Viana Filho a peça Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Com Dias Gomes escreve a peça Dr. Getúlio, sua vida e sua glória. Já os poemas, publicados apenas em jornais e revistas da época, confirmam o engajamento do autor e revelam certa tendência panfletária e uma freqüente queda no prosaísmo. Muitos desses poemas foram reunidos, mais tarde, em Dentro da noite veloz. Um deles, Agosto 1964, é bastante conhecido: Entre lojas de flores e de sapatos, bares, mercados, butiques viajo num ônibus Estada de Ferro – Leblon Volto do trabalho, a noite em meio, fatigado de mentiras. O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud, relógio de lilases, concretismo, neoconcretismo, ficções de juventude, adeus, que a vida eu a compor à vista aos donos do mundo. Ao peso dos impostos, o verso sufoca, a poesia agora responde a inquérito policial-militar. Digo adeus à ilusão Mas não ao mundo. Mas não à vida, Meu reduto e meu reino. Do salário injusto, da punição injusta, da humilhação, da tortura, do terror, retiramos algo e com ele construímos um artefato um poema uma bandeira.
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