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Ferreira Gullar- parte II
Mas é com o Poema sujo, 1975, que Ferreira Gullar encontra a solução dos impasses políticos e estéticos que impediam-no de realizar uma poesia de primeira grandeza. Politicamente, ele rompe com o comprometimento explícito das obras da década de 1960, preferindo embutir a questão social nas ações e lembranças que o poema evoca. Esteticamente, ele consegue através de uma expressão livre e ousada (mas não formalista) – uma legítima “tempestade de versos”, como disse um crítico – mergulhar na sua vida pessoal: a infância e a adolescência em São Luís, o passado próximo e o remoto, descobrindo a realidade brasileira e a sua própria interioridade a partir do exílio em outros países. A grande força da obra nasce do fato de Ferreira Gullar obter desta sucessão caótica de passagens existenciais o retrato vivo de um homem brasileiro (um intelectual, na verdade), em seu conjunto de angústias e esperanças, gozos e tormentos individuais. Por outro lado, este homem traz consigo, através dos tortuosos caminhos da memória, um contexto provinciano, o Maranhão, a quitanda do pai, o Brasil dos anos de 1930 e 1940, tudo magistralmente evocado. Mas o que de fato projeta o Poema sujo para além do documento humano e histórico são as interrogações contínuas do poeta a respeito da permanência e da transitoriedade das coisas. O Poema sujo é também um poema sobre a passagem do tempo, sobre o esquecimento e sobre o caráter único das experiências de cada ser: (...) bela bela mais que bela mas como era o nome dela? Não era Helena nem Vera nem Nara nem Gabriela nem Tereza nem Maria Seu nome seu nome era... Perdeu-se na carne fria (...) Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos e pais dentro de um enigma? mas que importa um nome debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de garfos e facas e pratos louça que se quebraram já um prato de louça ordinária não dura tanto e as facas se perdem e os garfos se perdem pela vida caem pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos e baratas ou enferrujam no quintal esquecido entre os pés de erva cidreira e as grossas orelhas de hortelã quanta coisa se perde nesta vida. Após seu retorno ao país em 1977, Ferreira Gullar tornou-se o poeta emblemático da redemocratização brasileira, voltando a ter forte atuação na área cultural. Escreveu para a tevê, militou na crítica de arte e debateu a situação da poesia. Em seus últimos livros, a temática da passagem do tempo e a da morte – já presentes no Poema sujo – adquiriram predominância e significativa pungência.
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