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  Literatura Contemporânea


Prosa brasileira de temática urbana (1945-1970) - parte I


CARLOS HEITOR CONY (1926 -)

VIDA: Filho de uma família de classe média carioca, Cony estudou em seminário de onde saiu um pouco antes de se ordenar padre. Ingressou então no jornalismo, atuando como repórter, editorialista e cronista. Em 1961, começou seu trabalho no célebre jornal Correio da Manhã, que faria dura oposição ao regime militar instalado em 1964. Nesta época, Cony escreveu uma série de artigos de crítica à nova ordem, que foram reunidos em O ato e o fato. Por algum tempo, ele foi obrigado a esconder-se para evitar a prisão. Apesar disso, foi preso vários vezes durante a ditadura militar. Ainda nos anos 60, o escritor passou a colaborar com a revista Manchete, dirigindo, inclusive, várias outras revistas do grupo. Em 1973, após a publicação do romance Pilatos, declarou que abandonava a literatura. Contudo, em 1995, depois de um silêncio de mais de vinte anos, voltou à ficção com o lírico romance Quase memória, de cunho autobiográfico. A seguir, escreveu outros romances e livros de crônicas.

OBRAS PRINCIPAIS

Romances: O ventre (1956); A verdade de cada dia (1959); Informação ao crucificado (1961); Matéria de memória (1962); Antes, o verão (1964); Balé branco (1965); Pessach: a travessia (1967); Pilatos(1973); Quase memória (1975); A casa do poeta trágico (1997)

Contos e crônicas: O ato e o fato (1964); Sobre todas as coisas (1968).

A ficção de Carlos Heitor Cony, pelo menos em suas obras inaugurais, filia-se a uma tradição narrativa carioca, expressa entre outros pelos romances de Manuel Antônio de Almeida, Lima Barreto e Marques Rebelo. De fato, o registro dos costumes do Rio de Janeiro, o realismo exterior e a prosa simples e coloquial, que surgem nos primeiros relatos de Cony, ainda na década de 1950, parecem confirmar a ascendência ilustre.

No entanto, como frisou Otto Maria Carpeaux, há também nestes romances (O ventre, A verdade de cada dia, Tijolo de segurança, etc.) algo que transcende à mera fixação de costumes. É visível nas narrativas de Cony uma tendência à problematização da existência e ao aprofundamento psicológico.Portanto, mais do que expressão de um neo-realismo tardio, estas obras expõem personagens em tormentosas situações de angústia, solidão e náusea, numa linha que parece ter sua matriz nos romances de Sartre e Albert Camus. Seus personagens são sempre inadequados à família, à classe e ao meio em que vivem. Geralmente, pertencem à classe média e, na melhor das hipóteses, encontram sua alternativa numa espécie de aceitação cínica da vida, adequando-se à realidade como ela é: suja, feia e feroz.

Entre os seus primeiros relatos, destacam-se O ventre, no qual já aparece esta perspectiva sombria de resignação e de quase rancor contra a existência; e A verdade de cada dia, frio e irônico retrato da vida suburbana. Contudo, em Informação ao crucificado, de teor autobiográfico, a perda da fé de um seminarista é tratada com delicadeza e discreta poesia.
A beleza poética do estilo de Carlos Heitor Cony mostra-se plenamente em Antes, o verão, pungente descrição do fim de um grande amor. Em nenhuma outra narrativa brasileira do século passado, a derrocada dos sentimentos, o confronto familiar, as questões financeiras que envolvem o casamento burguês, a tristeza e a exasperação sexual dos amantes (que se separam) foram apresentadas com tamanha sensibilidade. A prosa do escritor atinge uma sutileza e um lirismo inalcançáveis por qualquer outro ficcionista de sua época.

PESSACH: A TRAVESSIA

Em 1967, em plena ditadura e no auge do seu prestígio como opositor do regime, Cony lança o seu único romance político, Pessach: a travesssia. Dividido em duas partes, o texto centra-se na figura de Paulo, um ficcionista judeu de bastante sucesso, que narra, ele mesmo, os acontecimentos desencadeados a partir do dia de seus quarenta anos. Na primeira parte – a mais bem elaborada –, Paulo visita a filha adolescente no internato, encontra-se com a ex-mulher que lhe comunica seu próximo casamento, recebe em casa a amante e, depois, dialoga com um amigo que vem convidá-lo para ingressar na guerrilha. Apesar de sua ampla liberdade existencial, o escritor não aceita engajar-se. Ele despreza a ditadura, mas não se vincula a nenhuma ideologia revolucionária.

Porém, na segunda parte do romance, por circunstâncias mais ou menos fortuitas, Paulo é levado, contra a vontade, a ajudar um grupo de guerrilheiros. Com estes, inicia uma longa jornada em direção ao sul do país. Sua interlocutora é uma revolucionária chamada Vera, pela qual se apaixona. Há um grande choque entre soldados e militantes, e Vera é morta. Face a isso, Paulo, mais por imperativos morais e sentimentais do que por consciência política, adere à guerrilha e parte para a luta.

Esta segunda parte é bem menos verossímil que a primeira. Cony empresta uma dimensão militar e política à guerrilha muito maior do que ela teve na história da época. Assim, os confrontos entre milhares de revolucionários e soldados do exército parecem fantasiosos, quase surrealistas.

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