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Fernando Sabino
Apesar de ter escrito duas pequenas novelas, A marca e A vida real, Fernando Sabino consagrou-se como um cronista de primeira linha. Contudo, em 1956, ele surpreendeu os leitores com a publicação de uma narrativa longa, O encontro marcado. A repercussão foi espetacular, tornando-se de imediato o livro de cabeceira de milhares de jovens que nele se reconheciam por verem expostos ficcionalmente os seus próprios dramas existenciais. O encontro marcado seria assim um típico romance de geração, isto é, um relato centrado nos problemas específicos de um grupo etário/social de uma determinada época e cujo alcance esgota-se naquela geração. No entanto, examinado hoje, o texto de Fernando Sabino mantém o seu interesse e muitos leitores, sobretudo os adolescentes, ainda o cultuam. As razões do sucesso e da atualidade da obra são várias: Mais do que um romance de geração, trata-se de um romance de formação, ou seja ... O personagem central e narrador, Eduardo Marciano, visivelmente autobiográfico, em sua trajetória que vai da infância à vida adulta, traduz os anseios de uma juventude que – do fim da II Guerra a meados da década de 1950 – transformara as angústias ideológicas e políticas em inquietações pessoais como a da sexualidade insatisfeita, a da existência de Deus e da luta pela felicidade pessoal.Tanto Eduardo Marciano quanto seus melhores amigos, Mauro e Hugo, realizam parte de sua formação numa sociedade já livre da guerra e da ditadura e também menos rígida na obediência aos valores patriarcais. Isso significa que já podem escolher livremente os seus destinos individuais. Porém esta liberdade de optar causa-lhes vertigens e dilaceramentos íntimos. Num plano mais singelo, estamos diante da experiência da náusea* que Sartre espalhara pelo Ocidente, sobremodo em fins dos anos de 1930.As experiências amorosas e profissionais do personagem-narrador levam-no primeiro à exaltação e à euforia e em seguida à frustração. O fracasso de suas expectativas existenciais não o inibe na procura incessante de um sentido para a vida. O relato termina com a idéia de que a passagem pelo sofrimento amadurece o indivíduo e abre-lhe novos caminhos para que busque valores autênticos no mundo. O encontro marcado é um dos primeiros romances brasileiros da época em que os protagonistas não são originários nem possuem qualquer ligação com a zona rural. É uma narrativa totalmente urbana. A parte principal da mesma transcorre em Belo Horizonte, então capital pacata e modorrenta, o que acentua o contraste entre o provincianismo do meio e a ânsia cosmopolita dos jovens personagens que sonham com a literatura, com a grandeza e com a glória. Outra razão importante para a acolhida favorável da obra decorre de sua linguagem coloquial. Poucos relatos brasileiros apresentam uma tão bem sucedida simplicidade de estilo. Este tom espontâneo de narrar foge ao prosaísmo* e alcança diretamente o coração dos jovens, dando-lhes uma vigorosa impressão de autenticidade confessional.Em 1979, Fernando Sabino voltou ao romance com O grande mentecapto. Apesar de seu caráter divertido e do êxito editorial, a obra pouco acrescentou à carreira do escritor. *Prosaísmo: Redução da linguagem coloquial a uma espécie de trivialidade estilística. Muito comum a cronistas e jornalistas que produzem ficção.
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