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Nelson Rodrigues - crônica - parte I
OBRAS PRINCIPAIS: O óbvio ululante (1969); A cabra vadia (1970); O reacionário (1977). Apesar das maiores realizações artísticas de Nelson Rodrigues estarem na dramaturgia, é inegável sua importância para a crônica brasileira, tanto por seu estilo personalíssimo, marcado por uma quase inesgotável capacidade de criar frases de efeito (que nem sempre primavam pelo bom gosto), quanto pela veia polemista e iconoclasta com que retratou os costumes do Brasil urbano, num período compreendido entre as décadas de 1950 a 1970. Muitas de suas frases e expressões acabaram ingressando numa espécie de memória cultural brasileira por serem provocantes e até agressivas: – Num adultério, há homens que preferem ser o marido, não o amante. Os homens adoram ser traídos. – Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor. – Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma. – No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. – O Sábado é uma ilusão. – Aos dezoito anos, o homem não sabe nem como se diz bom-dia a uma mulher. O homem devia nascer com trinta anos feitos. – O amigo trai na primeira esquina. Ao passo que o inimigo não trai nunca. O inimigo é fiel. O inimigo é o que vai cuspir na cova da gente. – Toda mulher gosta de apanhar. – O Natal já foi festa, já foi um profundo gesto de amor. Hoje, o Natal é um orçamento. – Qualquer menino parece, hoje, um experimentado e perverso anão de 47 anos. – Se cada um conhecesse a intimidade sexual dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. – Toda unanimidade é burra. Outra peculiaridade na elaboração de suas crônicas é que, apresentando-as sob a forma tradicional de comentários sobre o cotidiano (portanto, como expressão direta das idéias do escritor a respeito da vida), ele introduz nelas personagens ficcionais e seres reais, que coexistem e dialogam entre si ou com o próprio autor. Entre os personagens criados, alguns aparecem reiteradamente, transformando-se em tipos inesquecíveis: Palhares, o canalha; a grã-fina com narinas de cadáver; a estagiária de calcanhar sujo; a freira de minissaia, o Sobrenatural de Almeida, a cabra vadia. Já entre as personalidades concretas surgem com muita freqüência: Otto Lara Rezende, Carlos Heitor Cony, Hélio Pellegrino, Alceu Amoroso Lima, Dom Helder Câmara e outros. O resultado é surpreendente: trata-se de uma desabusada e criativa mescla de ficção e de idéias, rara no gênero. Observe o trecho a seguir: Se Deus me intimasse a optar entre o Hélio Pellegrino e a humanidade, eu daria a seguinte e fulminante resposta: – “Morra a humanidade!”. E se fosse, não o Hélio, mas o Paulinho Mendes Campos, diria do mesmo jeito e com a mesma ênfase: – “Morra a humanidade!”. E, com isso, ficaria claro que, para mim, o amigo é o grande acontecimento, e repito: – só o amigo existe e o resto é paisagem. Os “outros” teriam assim uma estrita e secundária função paisagística. Didaticamente, pode-se dividir as crônicas do autor em três categorias temáticas: - Crônicas esportivas - Crônicas sociais e comportamentais - Crônicas memorialistas
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