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  Literatura Contemporânea


Nelson Rodrigues - crônica - parte II

CRÔNICAS ESPORTIVAS

O que interessa a Nelson Rodrigues no futebol nunca é o esporte em si. O estádio, os jogadores e a multidão não passam de um grande cenário, um pano de fundo para o que realmente representa, na visão do autor, uma partida de futebol: a metáfora da batalha vital de paixões e de tragédias que move a existência humana.
Isto pode ser observado no seguinte trecho da coluna À sombra das chuteiras imortais:

Sempre digo, nas minhas crônicas, que a arbitragem normal e honesta confere às partidas um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeariana. O espetáculo deixa de se resolver em termos especificamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve, no time prejudicado e respectiva torcida, esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe, adormecido, no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue.

CRÔNICAS SOCIAIS E COMPORTAMENTAIS

Durante os anos 1960, Nelson Rodrigues assumiu uma posição bastante controversa em relação ao regime militar. Se nunca o apoiou com vigor, contra as esquerdas brasileiras dirigiu críticas duríssimas, sempre permeadas, é claro, por um misto de ironia, coloquialidade que o aproximava do leitor comum e um extremo saudosismo de um Brasil e de um mundo desaparecidos com a modernidade. Essa postura valeu-lhe o título de “reacionário”.

Outra de suas constantes obsessões, era a proliferação dos idiotas e o espaço crescente que obtinham na mídia:

Durante 40 mil anos, o pateta sabia-se pateta e como tal se comportava. Os melhores pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Mas em nosso tempo, e só em nosso tempo, os idiotas descobrem que estão em maior número. E, então, investido da onipotência numérica, quer derrubar tudo. Diz o bom dr. Alceu que o grande acontecimento do século [XX] foi a Revolução Russa. Errou. Houve e continua uma outra muito maior, sim, muito mais profunda: – a Revolução dos Idiotas. (O Reacionário, p. 100)

CRÔNICAS MEMORIALISTAS

É perceptível ao longo de toda a crônica rodrigueana uma constante nostalgia e uma saudade do Rio de Janeiro da época de Machado de Assis, pré-vacina obrigatória. Apesar do Nelson Rodrigues histórico não ter vivido nesse Rio, toda sua obra estará marcada pela visão do menino, que em suas próprias palavras “enxerga o mundo através do buraco da fechadura”.

Em suas confissões e principalmente nas memórias de caráter extremamente pessoal, o resgate da infância é um tema recorrente:

Em 1913, mesmo meu pai e minha mãe pareciam não ter nada a ver com a vida real. Vagavam, diáfanos, por entre as mesas e cadeiras. Depois, eu os vejo parados, com uma pose meio espectral de retrato antigo. Mas nem meu pai, nem minha mãe falavam. Eu não os ouvia. O que me espanta é que essa primeira infância não tem palavras. Não me lembro de uma única voz. Não guardei um bom-dia, um gemido, um grito. Não há um canto de galo no meu primeiro e segundo ano de vida. O próprio mar era silêncio. (A menina sem estrela, p. 15)

Suas memórias, algumas vezes, como no trecho seguinte, atingem um lirismo extraordinário:

Volto aos meus quatro anos. E, de repente, os cegos aparecem.(...) Eram quatro e um guia. Estavam de chapéu, roupa escura, colarinho, gravata, colete, botinas. Juntaram-se na esquina da farmácia e tocaram violino. Não acordeão, não sanfona, mas violino. Saí da janela, fiz a volta e fui ver, de perto, os ceguinhos. (...) Uma certeza se cravou em mim: – eu ia ficar cego. Deus queria que eu ficasse cego. Era vontade de Deus. (...)
Muito anos depois, conheci Lúcia. Lembro-me de que, numa de nossas conversas, falei-lhe assim: – “Desde criança, tenho medo de ficar cego. Mas se isso acontecesse, eu...”. Fiz a pausa e completei: – “... eu meteria uma bala na cabeça”. (...)
Depois, a gravidez. Ah, quando eu soube que ela só podia ter filho com cesariana. (...) O marido, cuja mulher só pode ter filho com cesariana, terá de amá-la até a última lágrima. (...) Se for menina, o nome é Daniela”, disse Lúcia. (...)
Mais uma semana, Lúcia e Daniela vinham para casa. Tão miudinha a garota, meu Deus, que cabia numa caixa de sapatos.
Dois meses depois, dr. Abreu Fialho passa na minha casa. Viu minha filha, fez todos os exames. Meia hora depois, descemos juntos. Ele estava no carro e eu ia para a TV Rio, ofereceu-se para levar-me ao posto 6. No caminho, foi muito delicado, teve muito tato. Sua compaixão era quase imperceptível. Mas disse tudo. Minha filha era cega. (A menina sem estrela, p.45-48)

A VIDA COMO ELA É

Não seria equivocado acrescentar ainda a essa tipologia da crônica de Nelson Rodrigues os relatos de A vida como ela é. Estruturados ficcionalmente como contos, giram em torno das eternas obsessões do escritor: amores proibidos, adultérios, perversões familiares, etc. Produzidas sob pressão jornalística diária, estas pequenas histórias se ressentem de maior profundidade e de melhor acabamento formal, a exemplo de obras similares feitas por outros cronistas.


Para saber mais sobre a vida e obra de Nelson Rodrigues

– CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico. Companhia das Letras. São Paulo.

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