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Luis Fernando Veríssimo - parte II
Algumas das melhores crônicas de Luis Fernando Veríssimo são aquelas que, tendo uma estrutura ficcional e uma visão humorística, registram as transformações vividas pelo país a partir da década de 1960. Nelas, o escritor fixa, de maneira humorística, as dificuldades dos indivíduos em um mundo de grande instabilidade. O Brasil de Veríssimo é marcado pela decadência dos valores tradicionais, pela destruição do patriarcalismo, pelo relativismo moral do tempo presente, pela crise do casamento monogâmico, por novos relacionamentos amorosos e sexuais, pela liberação da mulher, pelos direitos ilimitados da juventude, por modismos culturais e por uma espécie de pensamento único centrado no espírito hedonista*, consumista e capitalista. Imersos nesta realidade, em que nada é sólido ou seguro, os personagens passam por uma série de dificuldades existenciais. Todas elas são mostradas pelo cronista com engenho e graça . Em vários relatos, contudo, aparece, disfarçado pelo humor aparente, um sentimento de desamparo e de solidão, muito próprio do homem contemporâneo. Este vazio existencial confere a muitas destas crônicas uma dimensão mais profunda e rica. Tome-se como exemplo o fragmento de Noites do Bogart*: Hedonista: Pessoa para quem o prazer é a finalidade da vida. Bogart: Célebre casa noturna em Porto Alegre, na década de 1980. O Xavier chegou com a namorada mas, prudentemente, não a levou para a mesa com o grupo. Abanou de longe. Na mesa, as opiniões se dividiam. - Pouca vergonha. - Deixa o Xavier. - Podia ser a filha dele. - Aliás, é colega da filha dele. (...) Na sua mesa, o Xavier pegara na mão da moça. (...) - Está gostando? - Pô. Só. - Chocante, né? – disse o Xavier. E depois ficou na dúvida. Ainda se dizia “chocante”? (...) Beberam em silêncio. (...) E ele disse: - Quer dançar? E ela disse, sem pensar: - Depois, tio. E ficaram em silêncio. Ela pensando “será que ele ouviu?”. E ele pensando “faço algum comentário a respeito, ou deixo passar?”. Decidiu deixar passar. Mas pelo resto da noite aquele “tio” ficou em cima da mesa, entre os dois, latejando como um sapo. Ele a levou em casa. Depois voltou. Sentou com os amigos. - Aí, Xavier. E a namorada? Ele não respondeu. (...)
Entre suas várias autodefinições irônicas, a mais conhecida é aquela em que Luis Fernando Veríssimo apresenta-se como um gigolô das palavras. Atrás do espírito brincalhão, revela-se o escritor preocupado com as infinitas possibilidades de expressão que as palavras carregam: Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto em sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família, nem os que os outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha o mínimo escrúpulo em roubá-las de outros quando acho que vou ganhar com isso.
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