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Rubem Braga - parte II
O efeito sugestivo dos textos de Rubem Braga origina-se também de uma linguagem melodiosa, cheia de nuanças e evocações, dominada por frases e períodos mais longos que os cronistas usam normalmente. Na trilha dos grandes poetas brasileiros do século XX, o autor de Ai de ti, Copacabana! mescla o coloquial e o padrão culto da língua, estabelecendo um estilo de inquestionável vigor literário. Observe-se, por exemplo, este fragmento de Visão: No centro do dia cinzento, no meio da banal viagem, e nesse momento em que a custo equilibramos todos os motivos de agir e de cruzar os braços de insistir e desesperar, e ficamos quietos, neutros e presos ao mais medíocre equilíbrio – foi então que aconteceu. Eu vinha sem raiva nem desejo – no fundo do coração as feridas mal cicatrizadas, e a esperança humilde como ave doméstica – eu vinha como um homem que vem e vai, e já teve noites de tormenta e madrugadas de sede, e dias vividos com todos os nervos e com toda a alma, e charnecas* de tédio atravessadas com a longa paciência dos pobres (...) – eu vinha como um elemento altamente banal, de paletó e gravata (...) – assim eu vinha, como quem ama as mulheres de seu país, as comidas de sua infância e as toalhas de seu lar – quando aconteceu. (...) Foi apenas um instante antes de se abrir um sinal numa esquina, dentro de um grande carro negro, uma figura de mulher que nesse instante me fitou e sorriu com seus grandes olhos de azul límpido e a boca fresca e viva; que depois ainda moveu de leve os lábios como se fosse dizer alguma coisa – e se perdeu, a um arranco do carro, na confusão do tráfego da rua estreita e rápida. Mas foi como se, preso na penumbra da mesma cela eternamente, eu visse uma parede se abrir sobre uma paisagem úmida e brilhante de todos os sonhos de luz. (...)
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