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Rubem Fonseca- parte II
Há muitos leitores e críticos que, equivocadamente, reduzem Rubem Fonseca a um mero retratista da violência urbana que assola o país. No entanto, em suas ficções, surgem outro tema mais complexo e rico: a solidão dos indivíduos nas grandes metrópoles. A maioria dos protagonistas de seus relatos vivem opressos, quando não aturdidos, pela sensação de isolamento e de vácuo na alma. Os amores profundos, geralmente ficaram no passado e são evocados, de passagem, numa prosa quase gélida. Já no tempo presente, a cidade lhes oferece uma abundância de possibilidades eróticas e quase nada no plano dos afetos e das relações mais permanentes. Daí o sentido efêmero de todas as paixões e de todos os vínculos. Daí também a verdadeira obsessão sexual que envolve os personagens, cuja única alternativa ao vazio da existência é a busca incessante dos prazeres da sensualidade, como se na satisfação física do desejo residisse a última certeza de que ainda se está vivo. Em meio a esta irrefreável compulsão pelo sexo, alguns deles lembram de algo essencial que foi inexoravelmente degradado pelo tempo. No conto Curriculum vitae, o narrador brinca com os cabelos da amante e evoca a história de um rapaz que perdera a namorada por não ter emprego, já que a única coisa que sabia fazer era acompanhar em seu bongô músicas de Bach. Veja a força poética do final do relato: Eu estou na cama tenso, pensando naquilo. Digo para a mulher: ele só sabia tocar bongô acompanhando Bach, e assim El Cubanito não pode aproveitá-lo em sua orquestra, ninguém podia aproveitá-lo. Ela responde: e depois o que aconteceu?, mas sem o menor interesse, a nossa brincadeira já terminou e é hora de ir para casa. (Sem saber a verdade). Digo para a mulher: a menina de 17 anos esqueceu o rapaz, e ele também esqueceu a mocinha. (Não, não ele não esqueceu a mocinha, mas devia tê-la esquecido: todo homem é uma ilha, vamos deixar de poesia).
Este universo ficcional caracteriza-se pela multiplicidade de técnicas e de linguagens utilizadas pelo autor. No romance O caso Morel, por exemplo, há uma criativa desintegração da estrutura narrativa convencional. Rubem Fonseca lida também à perfeição com todos as espécies de conto, do anedótico ao de atmosfera; do conto tradicional ao conto de vanguarda, quase caótico. Na questão do ponto de vista narrativo, sente-se mais à vontade nos textos em primeira pessoa. Porém, o surpreendente é que cada tipo social expressa-se com uma fala distinta. O assaltante tem seu código, o seu estilo, assim como o advogado, o empresário, o jornalista, a prostituta, etc., numa variedade lingüística, carregada de coloquialismos, que é verdadeiramente assombrosa. Diante desta polifonia de vozes, o escritor mantém-se neutro, dando uma lógica a todas elas, fato que amplia a verossimilhança dos textos.
A novidade temática e formal de sua obra logo seduziu os leitores do país e mesmo do exterior. Em especial nos contos, sobressai-se um conjunto expressivo de obras-primas, entre as quais A força humana, Gazela, A coleira do cão, Corações solitários, Onze de março, O buraco na parede, etc. O estilo despojado, por vezes elíptico, os diálogos convincentes, o experimentalismo formal e o realismo com que revela e interpreta a vida urbana brasileira foram logo imitados. É o escritor que mais tem seguidores hoje no país. A maioria destes, contudo, não possuem a mesma inspiração, caindo na banalidade jornalística, na fotografia gratuita da violência ou no gosto pela morbidez, aspectos menores da obra de Rubem Fonseca. * É preciso atentar que quando Rubem Fonseca passou a retratar a violência urbana em seus contos, esse fenômeno era apenas latente na sociedade brasileira. De certa maneira, sua obra antecipou a realidade atual.
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