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A Itália de Maquiavel
Eram sinceros e profundos os lamentos dos poetas e pensadores italianos dos tempos medievais e renascentistas, maldizendo a situação em que a península por séculos se encontrava. Vivia às sombras do antigo brio do império romano, desaparecido há mais de mil anos. É natural que a maioria deles imaginasse num modo de restaurar os honoráveis louros da época de César, de Augusto, de Trajano, Adriano ou de Marco Aurélio, quando o povo itálico mandava no mundo. Entre eles Nicolau Maquiavel, o ardiloso e brilhante florentino, o famoso autor de "O Príncipe", de 1512.
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O condotiero Bartolomeo Colleoni, protótipo do homem-forte idealizado por Maquiavel ( estátua de Verrocchio)
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Dante (+ 1327) chegou a enviar cartas a um imperador alemão, a Henrique IV, rogando-lhe que viesse por um fim na anarquia italiana. Pouco depois, foi a vez do poeta Petrarca (+ 1374) acercar-se do tribuno Cola de Rienzi (+ 1354) que queria unificar a península por meio de uma confederação de tiranias lideradas por ele. Rogavam aos céus e articulavam na terra em busca de um salvador, um príncipe viril que resgatasse a pátria da confusão e da anarquia em que permanentemente se encontrava.Não era para menos, visto que a pobre Itália acolhia todos os tipos de regimes políticos conhecidos, o que a levava a uma dilaceração e fragmentação perpétua. Além de se ver palco da eterna rivalidade entre o poder do Papado e o do Imperador do Sacro Império Romano Germano (o que dividiu cada cidade italiana entre os partidários da mitra, os guelfos, e os partidários da coroa,os gibelinos),reis estrangeiros abocanhavam boa parte da região sul do pais ( o Reino das Duas Sicílias, controlado pelo reino de Aragão). Em meio disso tudo erguiam-se as cidades livres, engolfadas pelas guerras e pelas conjuras, umas contra as outras (*). Politicamente a Itália era uma Pentarquia, composta pelo Papado, pelas repúblicas de Veneza e Florença, pelo Ducado de Milão, e pelo Reino de Nápolis, em permanente desentendimento, dilacerada pelos conflitos civis. O conceito de pátria era limitado. Restringia-se à paróquia em que se nascia: cada dialeto falado formava um país isolado e distante dos demais. Ninguém se importava muito com a sorte dos vizinhos, desde que não afetasse o espírito de campanário, o provincianismo arraigado em que cada italiano nascia, vivia e morria. Ainda que a Itália do tempo de Maquiavel fosse um monumento à desordem política e civil, isto não foi obstáculo que para que nos campos da arte e da alta cultura a nação vivesse um dos seus momentos de maior esplendor. Nenhum dos países ocidentais tivera a sorte de contar, entre os séculos XIV e XVII, com a quantidade extraordinária de gênios de excepcional qualidade como a Itália daquele época: como os poetas Dante, Petrarca e Ariosto, artistas, cientistas e inventores como Leonardo da Vinci e Galileu, filósofos como Marcilio Ficino, Pico della Mirândola e Giordano Bruno, pintores como Giotto, Rafael, Verrocchio, Filipo Lippi, Botticelli, Ticiano, Tintoretto, escultores como Donatello e Miguel Ângelo, arquitetos como Alberdi, Brunelleschi e Palladio. Talentos, pois, é que não lhe faltaram. Era como se o Caos da sua vida cotidiana encontrasse o seu consolo na Ordem que emanava das belas artes e das letras. (*) Datavam de 1215 as origens das duas grandes facções políticas que dividiam as cidades-republicas italianas. Derivava da rivalidade existente na Alemanha Imperial entre os Welf e os Hohenstaufen ( cujo castelo denominava-se Waibligen), o que rendeu Guelfos e Gibelinos em italiano. Os primeiros, os Guelfos, abrigavam a nobreza feudal e os mercadores mais poderosos, o popolo grasso; o segundo, era o partido da classe média vinda das guildas e das corporações de ofício. Foi o impasse entre ambos os grupos que levou as cidades a escolherem um podestá, um governante, vindo de fora dos quadros locais.
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A Itália do século XV
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"A mais perfeita consciência política, o desenvolvimento mais completo e variado encontram-se reunidos na história de Florença, a cidade que, neste sentido, merece ser considerada o primeiro Estado Moderno do mundo". (Jacob Burckhardt – A civilização da renascença italiana, 1860) A Florença à época do Renascimento - eqüidistante de Roma, mais ao sul e de Gênova e Milão, ao norte, situada nas duas margens do rio Arno, que cortava a bela região da Toscana, era um vibrante e criativo centro artístico, fabril, comercial e bancário. Possuía 270 oficinas voltadas a dar tratos à lã, 83 outras dedicadas aos tecidos de seda, brocados de ouro e de prata, veludos, cetins e demais peças finas para o vestuário dos ricos, que se somavam aos 33 bancos hábeis em fazer transações internacionais com o Levante, com as outras cidades italianas, com Bruges, Londres, Genebra, ou qualquer outro lugar em que a riqueza circulava. O controle que ela exercia sobre o porto de Pisa, situado no Mar Tirreno, cidade satelitizada por ela, dava-lhe a autonomia necessária para que os seus produtos de exportação chegassem ao mercado comprador. Era essa íntima associação entre o tecido, o balcão e o cifrão, é que explicava o sucesso dela. Na verdade "A Cidade das Flores" era o maior império econômico da Itália; o equivalente peninsular ao poder que a Republica de Veneza exercia no exterior, com seus negócios voltados para o Levante, Grécia e Mar Negro.
Depois de um curto exílio, quando fora expulso da cidade de Florença por alguns meses, Cosme de Médici (+ 1464) retornou ao poder em meio às fanfarras do povo da cidade, no ano de 1434. De certo modo não deixava de ser uma ironia o fato da gente comum de Florença, o popolo minuto, dar o seu apoio à família mais rica de toda a Toscana, região da qual Florença era a capital. Ocorreu que foi ele, Cosme, o único com coragem e disposição para enfrentar os oligarcas locais, o popolo vecchio, limitando-lhes a autoridade. Quando faleceu, consagraram-no como pater patriae, o pai da pátria, o homem em que a multidão urbana mais confiava. A política em Florença era ativa e tumultuada, com longa crônica de golpes e complôs, temperados por envenenamentos ou assassinatos de encomenda, causando espanto haver naquela cidade habitantes tão amante das artes e da cultura que contraditoriamente conviviam com a paixão pela intriga, pela conspiração e pelo uso de licores e poções mortíferas para resolver problemas políticos e outros. Fazia tempo que a cidade se lamentava de ter banido, século e meio antes de Maquiavel nascer, o maior poeta da língua italiana em todo os tempos: Dante Alighieri (+ 1321). Envolvido nas lutas sectárias que separavam seus conterrâneos entre os Guelfos Negros e os Guelfos Brancos (que disputavam a simpatia do imperador do Sacro Império), facção a que pertencia, o grande nome, colocado no ostracismo, teve que buscar sua sobrevivência em outras cidades de onde nunca deixou de amaldiçoar e imprecar contra Florença e os florentinos. Foi comendo o amargo pão do exílio, percorrendo as estradas sem fim do desterro, que Dante compôs a Comédia (mais tarde chamada de a "Divina Comédia"), obra magna da literatura italiana e universal. Antes de falecer, ciente de ser um notável poeta, deixou registrado que nunca removessem os seus restos de Ravena, onde passou seus derradeiros anos, de volta para a sua cidade natal, visto que, se ela não o aceitara em vida, muito menos o teria depois de morto (a Senhoria, órgão executivo de Florença, somente levantou-lhe a interdição em 1481).
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A cavalgada dos Médici
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Cosme, homem habilíssimo nos negócios, nos longos anos em que usufruiu o poder sobre a cidade, jamais cedeu a tentação de também se tornar abertamente num tirano, como era tão comum por aqueles tempos turbulentos, mantendo-se no controle de tudo por meio de terceiros. Quase não havia função ou cargo público, da Senhoria a mais modesta sinecura, que não fosse ocupado por alguém ligado a ele. O serviço civil de Florença era uma extensão da Casa dos Médici. Agiu como se fora um exímio cenógrafo, dirigindo o espetáculo à distância, dos bastidores, paralelamente ao tempo em que dedicava sua vida ao auto-aperfeiçoamento cultural, protegendo artistas (Paolo Uccello, Luca della Robbia, Pollaiolo, Fra Angélico, Michelozzo e Donatello) e pensadores (os filósofos neoplatônicos e os humanistas seus amigos). Para seus adversários ele nada mais era senão que uma aranha-rainha cobiçosa que lançava suas teias invisíveis sobre tudo o que se mexia ou rendia dinheiro pela Toscana inteira, ou no exterior. Para proteger-se ainda mais, Cosme estabeleceu uma ampla gama de contatos que o ligavam ao Papado em Roma (foi o banqueiro da Santa Sé), e às poderosas cortes de Paris e Londres, com múltiplos negócios estendidos até Constantinopla. Foi o mais bem sucedido homem de negócios do Quattrocento.
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