|
Japão, da espada à indústria
O Japão para os ocidentais, por séculos, parecia ficar lá para os lados do fim do mundo onde tudo se acabava. Era a misteriosa e longínqua ilha de Cipango, citada por Marco Pólo, que fora descoberta pelo navegador português Mendes Pinto, em 1542.Para os nipônicos, ao revés, o seu arquipélago situava-se no princípio de tudo, o começo de onde se vê por primeiro a notável bola incandescente que emerge do Oceano Pacífico, acreditando assim descender da celestial Amaterasu Omikami, a deusa do Sol.
|
|
|
|
O guerreiro samurai
|
Segundo o visitador jesuíta Alexandro Valignano (1539-1606), num relatório enviado aos seus superiores intitulado “Sumário das coisas do Japão”, de 1583, os japoneses eram diferentes em quase tudo. Polidos, asseados, gentis, fossem eles nobres ou gente do povo, não tinham a ignorância nem a rusticidade do camponês europeu. Percebeu-os, mesmo as crianças, extremamente dotados para o estudo e para o rápido aprendizado geral: da escrita latina à ciência. Todavia, acrescentou, os nativos tinham gosto totalmente ao contrário. A cor preta, por exemplo, lhes parecia algo alegre, enquanto que o branco lembrava tristeza. Além disso, frente aos estranhos, tiravam os calçados e se sentavam, costume bem oposto ao ocidental, que era o dede se colocar de pé e retirar o chapéu. Os sons que embalavam suas músicas são um tormento para um ocidental; para eles, por sua volta, um acorde europeu deixa-os tontos ou com os tímpanos dilacerados. Inclusive a maneira de curar os doentes era totalmente diferente: o que um europeu recomenda como dieta para alguém acamado é inteiramente distinto da receita japonesa. Sem esquecer de mencionar que montavam no cavalo pelo outro lado. Suas refeições são modestas e higiênicas, sempre acompanhadas por uma bebida quente, inclusive em pleno verão. Comem com faxies, com dois pauzinhos, desprezando o garfo ou a colher. Enquanto nas travessas do ocidental reina um assado, de rês, frango ou porco, na mesa do lar japonês impera soberano o peixe cru acompanhado de sushi, o apreciado quitute de arroz. Para um é o grelhado, para o outro é o fervido. O hábito de se sentar sobre os calcanhares ou com as pernas cruzadas, para eles é um descanso, para o ocidental um suplício. No tocante às relações pessoais ou funcionais, o japonês que se preza jamais se queixa frente a uma pessoa, especialmente seu superior. Considera isso de extremo mau gosto, uma descortesia. Quando encontram alguém é uma ocasião para manifestar satisfação e alegria e não para desfiar lamúrias ou lágrimas.(*) Entendeu, o padre Valignano, que o Japão, ainda que inconscientemente, havia adotado uma infinidade de costumes com o firme propósito de ser diferente de todo o mundo. E, de fato, o era. A perplexidade para com o comportamento japonês prosseguiu por séculos a diante. Nos estertores da Segunda Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos solicitou à antropóloga Ruth Benedict que produzisse um texto para ajudar, de alguma forma, a entender os nipônicos, visto que os combates, ainda que intensos e mortíferos, estavam aproximando-se do desenlace final e os norte-americanos nada sabiam do país que, em breve, iriam ocupar. Foi assim que nasceu um dos clássicos das ciências sociais, intitulado O Crisântemo e a Espada, 1945, e que veio a ser uma das melhores introduções ao entendimento da sociedade japonesa da nossa época. (*) Significativo deste interdito que recomenda que um vassalo não apresente queixa, é a história de Sogoro Kiuchi, senhor de Kozumaru, hoje Narita, ocorrida em 1652, que se apresentou ao xogum Tokugawa Ietsuna para dizer-lhe que a população local, devastada pela fome e reduzida à pobreza extrema, estava impedida de pagar as taxas. O xogum acolheu a demanda, mas ordenou que Sogoro e sua família fossem executados, o que ocorreu em 3 de agosto, de 1653.
Composto por uma conjunção geológica formada por mais de três mil ilhas que se estendem ao largo da costa oriental do Oceano Pacífico, vizinha da Rússia, da China e da Coréia, o Japão, banhado pelo Mar do Okhurt e pelo Mar do Japão, apesar das suas modestas extensões geográficas e condições econômicas, foi o único país do mundo e o primeiro da Ásia a enfrentar econômica e militarmente, em diversas ocasiões, os maiores poderes existentes na terra.Primeira potência econômica e militar que se projetara no Oriente, na busca do seu lugar na constelação dos poderes universais, entre os anos de 1931 a 1945, chegou a conquistar um território de 5.441.600 km², povoado por mais de 450 milhões de indivíduos. Como isso foi possível? Como um arquipélago montanhoso, que conta com 188 vulcões, atormentado por furacões e terremotos, pobre em minerais, petróleo ou ouro, circulando numa órbita própria tal como se fora um outro planeta, conseguiu tal poder e projeção internacional em tão curto espaço de tempo, desconhecida entre os demais habitantes da Ásia? A mais plausível das explicações encontra-se na peculiar conjugação de elementos que atuaram sincronicamente naquela direção ao longo dos últimos dois séculos e história. Entre os quais, em primeiro lugar, identifica-se a determinação inquebrantável da genro, a elite imperial japonesa, em dotar o seu país de um poderio sem igual naquelas paragens. Em segundo lugar, tamanho feito deveu-se às históricas qualidades de disciplina coletiva da sua população, combinadas com a sua excepcional capacidade de trabalho. E, em terceiro, a ausência entre eles de uma mentalidade subdesenvolvida. Nota-se, nos japoneses, a inexistência de um complexo de inferioridade em relação ao colonialismo europeu. Complexo esse muito comum entre os povos asiáticos que os levou a assumir, por vezes, uma psicologia paralisante e a prestar uma "servidão voluntária" ao homem branco recém chegado por lá.
Divisão Geográfica e Histórica
|
|
|
|
Mapa do Japão
|
Situadas no Mar do Japão, as ilhas que compõem o país estendem-se do norte ao sul: da península de Kamchatka, no mar de Okhotsk, até aproximarem-se da península da Coréia, das quais se acham separadas pelo estreito de Tsushima e o da Coréia, de apenas 170 km de extensão.Quatro delas, devido a suas dimensões e densidades demográficas, são as mais importantes: as ilhas de Hokaido, Honshu, Shikoku e Kyushu, que, somadas às demais, alcançam a extensão de 372 mil km², com uma população que, em 2000, ultrapassava os 127 milhões de habitantes. Recorrendo a uma imagem figurada, poderíamos dizer que a cabeça do arquipélago nipônico encontra-se banhada pelas águas glaciais do mar de Okhotsk, enquanto seus pés, fixados na ilha de Okinawa, a 2.700 quilômetros mais abaixo, estão envoltos pelas águas quentes da bacia do mar das Filipinas. A origem dos seus primeiros povoadores seguramente veio da China continental, ao redor dos anos 5 mil a.C., ou mais, de onde importaram a religião confucionista e a budista, como também a escrita ideográfica. Os historiadores subdividiram a história do Japão em diversos períodos cujas denominações são: Jomon-Yayoi (300 a .C. - 300 d.C.); Kofun (300-538); Asuka (538-710); Nara (710-784); Heian (794-1185); Kamekura (1192-1333); Muromachi (1338-1573) Azuchi-Momoyama (1573-1603); Edo (1603-1867), Meiji (1868-1912); Taisho (1912-1926); Showa (1926-1989) e a Heisen (desde 1989), cobrindo assim 2.300 anos de história, desde os tempos míticos até o presente. Todavia, apenas os últimos 300 e poucos anos serão objeto da exposição que se segue, basicamente concentrada nos períodos Edo e Meiji, que cobrem o tempo em torno do ano de 1600 às proximidades de 1914, e que se encaixam nas fases kindai e gendai, isto é, moderna e contemporânea, da história nipônica. Séculos fundamentais esses, pois registraram a transformação da sociedade japonesa - de uma estrutura marcadamente feudal, numa outra, crescentemente moderna e capitalista - sem que o culto e o respeito às tradições fosse, com isso, abandonado ou esquecido.
|