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MUNDO

A rebelião Satsuma

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Ocorreu que a profundidade daquelas medidas desagradou a casta guerreira. O projeto militar aprovado pelo Meiji, implicou a formação de um exército de conscritos, camponeses adestrados com novos fuzis e canhões, em substituição aos corpos de samurais com suas espadas longas, algo anacrônico no Japão moderno.

Não tardou para que as autoridades proibissem aos espadachins de exibirem suas adagas pelas ruas. Foi a gota d’água para que a insatisfação dos samurais explodisse.

Quem liderou a insurgência de 1876 contra as novas restrições, consideradas ultrajantes, foi justamente um dos maiores próceres da Restauração Meiji, um dos Três Reformadores: Saigo Takamori (1827-1877).

Tempos antes, inconformado com o rumo das coisas, rompendo com seus pares e assumindo a bandeira do tradicionalismo ele se retirou para o castelo de Satsuma, em Kagoshima (província que mais cultuava o Bushido , tida como a Prússia do Japão).

Acreditando que o imperador tinha sido eclipsado pela Oligarquia Meiji, Saigo rebelou o clã Shimazu de Satsuma lançando-se numa guerra civil de curto fôlego.

Samurais contra canhões

Dois mundos se enfrentam (soldados contra samurais)
A batalha de Shiroyama, travada no dia 24 de setembro de 1877, entre o exército imperial e os guerreiros rebeldes de Takamori, foi ao mesmo tempo decisiva e emblemática. De um lado do campo estava a Modernidade, no outro a Tradição. Trezentos mil homens foram mobilizados para desbaratar os 25 mil samurais insurretos.

Seis mil deles foram massacrados pelo moderno equipamento bélico adquirido pelo governo imperial. O fim de Saigo Takamori assumiu então ares lendários. Uns asseguraram que ele, ferido, ao fim da batalha no monte Tahara-zaka, pedira a um seguidor que o decapitasse, outros disseram que teria cometido o seppuku, o suicídio ritual ao se ver ferido, atingido por uma bala.

O povo, todavia, deu para acreditar que ele, saindo pelos ares, se refugiara num reino distante, na Índia, na China ou mesmo na Rússia, de onde algum dia ele certamente voltaria com sua katana em punho para trazer justiça a todos. Séculos antes um samurai-poeta havia escrito:

"Vento do outono ao anoitecer sopra para bem longe as nuvens que cobriam a lua com seu brilho puro/e a névoa que cobria a nossa mente foi afastada para bem longe/Agora nós desaparecemos, bem, o que se pode pensar disto? Do céu nos viemos. Agora precisamos retornar.
Hôjô Ujimasa (1538-1590)

Construindo um novo país

Um dos aspectos mais notáveis da moderna história japonesa afirma-se na determinação em mudar totalmente as bases sociais, políticas e econômicas do país, importando tudo o que fosse possível.

Posição assumida integralmente pelo poder colegiado aristocrático que cercava o imperador, particularmente durante a atuação de Okubo Toshimichi, tido como o Bismarck japonês, assassinado por um fanático quando era titular do ministério do interior, em 1878 (os outros dois reformadores eram Saigo Takamori e Kigo Takayoshi).

Tal maneira de agir não era uma novidade, pois, no passado remoto, os japoneses haviam trazido praticamente tudo da China sua vizinha. Povo de índole pragmática, depois dos estragos psicológicos e morais feitos pela presença agressiva ocidental, representada pela esquadra do comodoro Perry, tratou de procurar copiar o que lhes interessava no mundo conhecido de então. A meta deles era alcançar o Fokuku Kyohei, “um país rico com um exército forte”.

O caso japonês se encaixa com perfeição no mecanismo de desafio-e-resposta concebido pelo historiador britânico Arnold Toynbee, segundo o qual tribos, povos e nações são constantemente incitados pela natureza ou pelos outros a darem a melhor resposta possível, dentro das suas condições, para superarem as dificuldades que tem pela frente, sobreviver e ir adiante.

Acossados pelos maiores impérios do mundo (o norte-americano, o britânico e o russo), os oligarcas decidiram-se a fazer do Japão a grande potência do Oriente. Somente com um Estado forte e uma economia industrializada poderiam barrar o destino de serem dominados como a China, a Indochina e a Indonésia o foram. De longe era preferível uma comunicação voluntária e de intenções pacíficas do que a submissão involuntária ao poder colonialista estrangeiro.

Concluíram, pois, que era preciso apossar-se dos segredos da “magia dos brancos”, isto é, a superioridade tecnológica ocidental, instrumento que fazia com que um punhado de brancos, europeus ou norte-americanos, facilmente controlassem a vida de milhões de asiáticos e os submetesse a sua vontade.

Civilização e Ilustração

Todavia não se tratava apenas de acelerar a importação de artigos, produtos e técnicas dos países mais adiantados do Ocidente. Precisava-se também mudar profundamente a mentalidade até então dominante. Para tal, intelectuais como Katô Hiroyuki e Fukuzawa Yukichi, engajaram-se no movimento Bunmei Kaika, "Civilização e Ilustração", que visava forjar uma concepção aberta às coisas do mundo, organizando com esse fim o Meiroku Zasshi, um jornal de divulgação. Esse teve como meta "tornar-se um guia para o povo comum para tirá-lo da ignorância e conduzi-lo ao esclarecimento da mesma forma que removesse as coisas superadas substituindo-as por coisas novas."

Katô foi ainda mais longe. Na sua obra Kokutai Shinron (A Nova Teoria da Essência Nacional, de 1874), atacou diretamente a concepção de estado que predominava entre os asiáticos, segundo a qual a terra e o povo eram propriedades do governante.

Pretendeu encontrar na monarquia constitucional a melhor forma de regime possível de abrigar os princípios da teoria do contrato social e acolher os artigos em defesa dos direitos humanos, bem como a revolucionária concepção, aspirada do constitucionalismo norte-americano, de que o povo tinha o direito de resistir aos governantes opressores.

Não só isso, os privilégios de casta e as desigualdades apoiadas na lei deviam ser suprimidos ao tempo em que os direitos de cidadania deviam ser estendido a todos os japoneses. Até a suspensão da exclusão dos parias (burakumin) foi recomendada e acatada (por lei de 1876).

Entrementes, para impressionar a população com as maravilhas tecnológicas ocidentais, exposições internacionais foram organizadas em Tóquio, uma em 1877 e outra em 1881, para que o povo tivesse uma impressão clara e palpável dos progressos atingidos por outras nações e assim apoiasse a reforma.

O grande debate da época Meiji deu-se em torno exatamente da Kokutai, da Essência Nacional, que seria um conjunto de valores políticos, culturais e religiosos seguidos pelos japoneses e permanentes. Os intelectuais conservadores, especialmente os acadêmicos, consideravam-nos fixos, perenes e inamovíveis.

Segundo Motoori Norinaga, falecido em 1801, que havia recorrido ao confucionismo para sedimentar os mitos nacionais, os valores antigos haviam se tornado inquestionáveis. Era algo perpétuo. Se assim fosse, argumentaram os reformistas da Meiroku Zasshi, nada poderia ser transformado ou alterado no Japão. O país ficaria preso para sempre aos ideais da idade média e aos costumes feudais, tornando-se impossível orientá-lo para o futuro.

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